Inovação no cooperativismo: por que as coops precisam inovar?
A inovação é fundamental para a competitividade das cooperativas
Inovar é uma maneira de se adaptar a novas situações e ambientes. É uma forma de evoluir constantemente e se manter competitivo em qualquer cenário. Esta explicação sozinha talvez já fosse suficiente para explicar a importância da inovação no cooperativismo. Aliás, não apenas no cooperativismo, mas em todos os segmentos econômicos.
O estudo sobre a inovação no ambiente de negócios mostra que ela influência e se conecta com conceitos como impacto social e econômico. Há, inclusive, estudos que indicam que a inovação agrega valor às instituições e que organizações que investem em projetos de inovação obtêm melhores resultados ao longo do tempo.
Além disso, a inovação no cooperativismo estimula a colaboração, a sustentabilidade, a igualdade e o compartilhamento. Ou seja, tudo que o cooperativismo é desde sua criação. Esses elementos sinalizam que o cooperativismo tem tudo para ser protagonista na nova economia.
Entretanto, é preciso conciliar a inovação às premissas do cooperativismo. Afinal, o setor é regido por sete princípios que precisam ser levados muito a sério para manter vivo o espírito do cooperativismo.
Em outras palavras, é preciso conciliar a dinâmica das cooperativas ao ritmo intenso de transformações imposto pelo mercado. Por isso, neste artigo iremos falar sobre como a inovação é estratégica para a perenização das cooperativas. Boa leitura!
Inovação no cooperativismo é essencial
Como vimos, o cooperativismo tem características em sintonia com a inovação. Porém, sua própria configuração pode trazer algumas barreiras. Nesse sentido, o Documento-Base do 14º CBC (Congresso Brasileiro do Cooperativismo) traz elementos muito importantes para compreender o processo de inovação em cooperativas.
Um dos motivos elencados no documento do 14º CBC diz respeito ao modelo administrativo do cooperativismo, baseado numa estrutura hierárquica rígida e com decisões centralizadas. De acordo com o documento, tal característica pode ser prejudicial à inovação. Afinal, esta exige organizações ágeis, com estruturas “flexíveis e aptas a se relacionar com clientes e colaboradores que já nasceram no mundo digital”.
O processo de constituição e funcionamento de uma cooperativa tem muitas regras e, em alguns ramos, tem procedimentos altamente regulados. O excesso de burocracia também pode tornar os processos mais lentos, trazendo mais dificuldades para mudanças rápidas, algo inerente à inovação.
Inovação no cooperativismo e diversidade
A pouca diversidade existente nos quadros das cooperativas também pode ser um entrave ao processo de inovação. Conforme dados do Anuário do Cooperativismo Brasileiro referentes a 2022, as mulheres representam apenas 22% do quadro de dirigentes de cooperativas no Brasil.
Além disso, de acordo com o Documento do 14º CBC, “só é possível reconhecer os problemas da sociedade se houver representatividade da população nas organizações”. Ou seja, de forma a “compartilhar diferentes pontos de vista e cocriar soluções que de fato sejam relevantes para diferentes pessoas”.
A afirmação é consonante ao estudo da McKinsey que alia a diversidade não apenas à capacidade de inovação, mas ao desempenho das organizações. Conforme dados levantados em 2017 pela McKinsey, organizações “no quartil superior para diversidade de gênero em suas equipes executivas eram 21% mais propensas a ter lucratividade acima da média do que as empresas no quartil inferior”.
Ainda segundo o estudo da McKinsey, é benéfica à inovação a “diversidade de formação, experiências, histórias de vida, conhecimentos, competências, idades e pensamentos nos grupos decisores”. Incluir pontos de vista variados é uma das maneiras de entender as dores da persona alvo da inovação e, assim, desenvolver novas maneiras de atendê-la.
Em outras palavras, quando a instituição tem representantes de diversas faixas etárias, gêneros, níveis sociais etc., é mais fácil entender os diversos olhares do público. Assim, a organização incorpora mais elementos à decisão, que tende a ser mais eficiente.
Ecossistema de inovação no cooperativismo
Uma das maneiras por meio da qual o cooperativismo pode fomentar a inovação é com o desenvolvimento de ecossistemas.
Um ecossistema de inovação no cooperativismo é um conjunto de fatores de estímulo à interação e cooperação, entre diferentes atores, que se tornam polos criativos onde é possível estimular a troca de experiências, o reconhecimento da comunidade, gerar redes de indicação e a melhora de habilidades.
Vantagens para inovar no modelo cooperativista
É preciso ponderar dois pontos neste momento. Primeiro, embora com menos regulação em alguns casos, empresas mercantis também enfrentam desafios ao inovar. Também é característico de alguns mercados a centralização das decisões e a falta de diversidade.
Além disso, grande parte das empresas mercantis, inclusive startups que nasceram mergulhadas em inovação, enfrentam dificuldades para incorporar e praticar o que cooperativas fazem por natureza e que são essenciais à inovação. Ou seja, capitalismo consciente, valor compartilhado, comércio justo, sustentabilidade, liderança colaborativa e empoderamento criativo.
Sob este aspecto, o cooperativismo apresenta muitas vantagens. E, por isso, é muito importante preservar suas raízes, conforme pontua Ênio Meinen, Diretor de Coordenação Sistêmica e Relações Institucionais do Sicoob e autor do livro Cooperativismo Financeiro: virtudes e oportunidades.
Para ele, enquanto as empresas mercantis buscam voltar o foco para os clientes, o cooperativismo sempre teve foco no cooperado. “Fala-se agora em foco DO cliente (em vez foco NO cliente). Ora, no cooperativismo o foco sempre foi DO cooperado, uma vez que ele é o dono do empreendimento”.
Cooperativismo e inovação nos serviços financeiros
Outro ponto muito importante é, na verdade, um exemplo que vem de dentro do próprio cooperativismo. As cooperativas de crédito têm se mostrado excelentes exemplos de inovação. Por vezes, elas apresentam mais agilidade no desenvolvimento de processos do que instituições financeiras tradicionais.
Temos diversas histórias em nossos cases de inovação que comprovam isso. O Sistema Ailos, por exemplo, está desenvolvendo uma nova modalidade de pagamento digital envolvendo o Pix em parceria com o Banco Central.
Ou seja, é perfeitamente possível inovar no cooperativismo. O que falta é encontrar o caminho - e é disso que vamos falar agora.
Modelo cooperativista de inovação
Como vimos, os princípios do cooperativismo não são impeditivos para criar uma cultura de inovação. Pelo contrário, se explorados da maneira correta, as premissas cooperativistas podem ser grandes aliadas da inovação. Basta entender tais características e aprender a inovar por conta própria, pois não existem receitas prontas para seu modelo de negócio.
Uma maneira das cooperativas não ficarem para trás será investindo numa mudança de mentalidade e de cultura, com foco em processos de inovação que funcionem bem para elas.
Ao longo dessa jornada de construção da cultura de inovação, as cooperativas podem buscar informações com empresas mercantis ou cooperativas que já estejam inovando. Afinal, os aprendizados e a inspiração obtidos por elas podem ser de grande valia. A cultura organizacional, inclusive, é um dos fatores mais importantes para a inovação no cooperativismo.
Desenvolvimento de habilidades comportamentais
Então, como em qualquer organização, a inovação no cooperativismo depende do desenvolvimento de soft skills - e nós listamos oito delas aqui. Trata-se de um conjunto de habilidades e competências intrinsecamente relacionadas ao comportamento das pessoas e que, de acordo com pesquisa realizada pelo LinkedIn, têm sido valorizadas pelas organizações.
Isto é: características que vão permitir aos gestores e colaboradores de cooperativas navegar pelas estruturas hierárquicas para criar uma cultura de inovação. Algumas das habilidades que podemos citar como positivas neste processo são:
Para qualquer tipo de organização, essas habilidades representam a capacidade de atuar com a agilidade necessária ao processo de inovação. Às cooperativas, elas irão possibilitar aumentar ainda mais seu impacto social e econômico na sociedade.
Portanto, por seguir os princípios do cooperativismo, uma cooperativa age no sentido de proporcionar gestão e controle democrático dos associados. Ao adquirir uma soft skill como a mentalidade digital, por exemplo, esse princípio pode ser ainda mais bem explorado.
Ou seja, usar recursos tecnológicos para chegar ainda mais perto e dar ainda mais voz aos cooperados. É o caso, por exemplo, da realização de assembleias virtuais. Algo que, aliás, muitas cooperativas passaram a fazer após a pandemia, como o Centro Cooperativo Sicoob e a Expocaccer, conforme contamos em nossos cases.
Cases de inovação no cooperativismo
Algumas organizações já têm encontrado seus caminhos para inovar no cooperativismo. Vamos falar sobre algumas iniciativas de inovação que têm começado a dar resultados para as cooperativas.
• Unimed Cascavel: a iniciativa Fábrica de Inovação impulsiona a cultura de inovação para coletar ideias de cooperados e colaboradores. O programa oferece bonificações e já gerou resultados concretos com considerável economia de recursos.
• Vinícola Aurora: em parceria com uma startup, a cooperativa consegue reduzir as aplicações de defensivos agrícolas por meio de um sistema que monitora condições climáticas e indica os momentos em que há probabilidade de desenvolvimento de míldio, um fungo que ataca as parreiras.
• Unicred União: em 2016, a cooperativa de crédito desenvolveu a Agência Mais, a primeira agência digital do cooperativismo financeiro. A iniciativa foi um sucesso e inspirou diversas outras coops.
• Seguros Unimed: a cooperativa criou uma plataforma tecnológica batizada de Stormia que integra mais de 350 cooperativas singulares. A tecnologia atua como marketplace e agregador de informações.
Confira mais iniciativas de inovação em nossos cases de inovação!
Conclusão: o protagonismo da inovação no cooperativismo
O cooperativismo tem algumas características que tornam mais lentos os processos internos e que prejudicam o dinamismo necessário à inovação.
Entretanto, a abertura ao novo, com o desenvolvimento de soft skills por parte dos colaboradores e a tomada de uma postura questionadora por parte das lideranças são capazes de reverter o quadro e o desenvolvimento de uma cultura voltada à inovação.
Mesmo a mais rígida estrutura e a regulação mais severa podem ser contornadas para dar espaço a iniciativas de inovação dentro do cooperativismo. Há diversos exemplos dentro e fora do segmento que servem de inspiração para acelerar ainda mais o movimento.
O importante é entender que o cooperativismo já tem, em sua essência, características que empresas de tecnologia de todo o mundo ainda não sabem como incorporar. Ao falar de inovação, é preciso, portanto, que o cooperativismo se baseie em suas forças para disseminar ainda mais seus princípios de colaboração e democracia.