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Desafios e oportunidades para o agronegócio brasileiro

Desafios e oportunidades para o agronegócio brasileiro

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Brasil aposta em tecnologia e recuperação de pastagens para unir produtividade, sustentabilidade ambiental e segurança alimentar global

Por Rodrigo Casagrande*

 

 O custo total de reconstrução dos desastres climáticos nos EUA, na década de 2015-2024, ultrapassa US$ 1,4 trilhão, enquanto os custos de 403 eventos de 1980 a 2024 ultrapassam US$ 2,915 trilhões. Segundo a ciência, a causa raiz desses desastres está no aumento da temperatura média do planeta.

Parece haver um entendimento de que existem duas linhas para se enfrentar o aquecimento global: fazendo o controle das emissões de gases de efeito estufa para tentar minimizá-los e criando resiliência contra os impactos atuais e futuros da mudança climática.

Todos esses movimentos custam dinheiro, uma vez que a descarbonização das operações pode significar a completa reestruturação das cadeias de valor, e isso demanda investimentos nada triviais.

As intempéries ocasionadas por mudanças abruptas no fluxo das águas têm como impacto direto a produção de alimentos. Parafraseando Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e um grande pensador sobre a realidade do agro: “onde não há alimentos na quantidade e qualidade demandadas, não há paz”. 

Potencial produtivo brasileiro

O Brasil, com as suas dimensões continentais, tem tudo para se tornar o grande fornecedor de alimentos para o mundo. Afinal, são 8,5 milhões de km² e apenas 3,5% dessas terras ocupadas por cidades e infraestrutura. Impressionante esse dado, não é mesmo?

Segundo a Embrapa Territorial, as áreas dedicadas à proteção e à preservação da vegetação nativa no Brasil equivalem a 28 países da Europa: Irlanda, Reino Unido, Portugal, Espanha, França, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Áustria, Itália, Holanda, Eslovênia, Dinamarca, Noruega, Suécia, Grécia, Bósnia e Herzegovina, Eslováquia, Eslovênia, República Tcheca, Polônia, Romênia, Bulgária, Chipre, Letônia, Lituânia, Estônia e Finlândia. O uso agropecuário das terras (30,2%) dá mostras do quanto esse setor é importante para a economia brasileira.

Ainda reforçando nossa potência natural, convém lembrar que o Brasil tem 60% da maior floresta tropical do planeta. A Pan-Amazônia tem 7,8 milhões de km2 e se espalha por nove países da América do Sul.

Depois do Brasil, o Peru vem com 13% desse patrimônio, e a Colômbia com 10%. O país com o segundo maior patrimônio de floresta tropical do mundo é a República Democrática do Congo, com um tamanho quatro vezes menor de floresta que o nosso.

Como se não bastasse, temos a maior bacia hidrográfica do mundo. A Bacia Amazônica, em território brasileiro, abrange 3,8 milhões de km², envolvendo sete estados. São eles: Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Pará e Amapá.

O rio principal da bacia, o Amazonas (maior do mundo), nasce na cordilheira dos Andes (Peru) e quando entra no Brasil é intitulado de Solimões. A confluência do Solimões com o rio Negro constitui o Amazonas.

Desafios da produção sustentável

Essa nossa condição privilegiada não permite que puxemos um lençol e cobertor para dormir em berço esplêndido. Temos desafios pela frente e a recuperação de áreas degradadas é um deles.

Publicação de maio de 2024 da Agroanalysis, da FGV Agro, além de trazer reflexões sobre o mercado de carbono e sobre a possibilidade de expansão dos bioinsumos no Brasil, oferece uma pesquisa sobre o potencial agrícola em áreas degradadas. O artigo demonstra que 20% dos 851 milhões de hectares que compõem o nosso território, ou seja, 170 milhões de hectares são (ou foram) utilizados para a pecuária. Desse total, 62% das pastagens, ou 110 milhões de hectares, compõem áreas com alguma degradação:

  • Degradação intermediária => 69,7 milhões de hectares;

  • Degradação severa => 35,7 milhões de hectares.

Vamos olhar o copo meio cheio? Nesse contexto, 10,5 milhões de hectares das pastagens que estão com degradação considerada como “severa” encontram-se em áreas com potencialidade agrícola “boa” ou “muito boa”, e 17,5 milhões de hectares das pastagens com degradação considerada como “intermediária” encontram-se em áreas com potencialidade agrícola “boa” ou “muito boa”.

Segundo os pesquisadores da Embrapa, a utilização desses 28 milhões de hectares de áreas de pastagem degradadas possibilitaria elevar em cerca de 35% a área plantada com cultivos temporários.

O agro e a emissão de carbono

É importante colocar luz no fato de que a agropecuária emite carbono, mas também remove. Essas remoções, provenientes da disseminação e do emprego de práticas e tecnologias ABC (Agropecuária de Baixa Emissão de Carbono), desempenham papel fundamental na busca por atender às metas climáticas do Acordo de Paris, assim como para guiar o setor na direção de uma produção de baixas emissões, buscando aumentar a produtividade ao mesmo tempo em que estocam mais carbono, reduzindo emissões de gases de efeito estufa.

No primeiro semestre de 2023, uma pesquisa conduzida pela Embrapa Trigo RS e a Universidade Federal de Santa Maria fez grandes achados. O estudo comprovou que o trigo é capaz de sequestrar mais carbono do que a quantidade que emite para a atmosfera.

Os cientistas observaram que, durante o ciclo produtivo, o trigo absorveu um total de 7.540 kg de dióxido de carbono (CO2) por hectare da atmosfera, neutralizando as emissões dos períodos de pousio (sem plantas de cobertura do solo ou cultura geradora de renda sob a forma de forragem ou produção de grãos) e garantiu a oferta líquida de 1.850 kg de CO2 por hectare (VEECK et al., 2022).

Caminhos para uma produção agropecuária sustentável

O que pode ser feito, de forma propositiva? Para que o Brasil seja o protagonista mundial na cadeia agroalimentar e para que possa enfrentar o cenário de cobranças para redução de GEE, foi criado o Plano ABC (Coalizão Brasil, 2020).

Trata-se de uma estratégia para transformar o setor agropecuário em exemplo e que passa por recuperação de pastagens degradadas; integração lavoura-pecuária-floresta; adoção de sistema de plantio direto; fixação biológica de nitrogênio; plantio de florestas; tratamento de dejetos animais e uso sustentável da biodiversidade, com pesquisas em recursos genéticos e melhoramentos, recursos hídricos, adaptação de sistemas produtivos e identificação de vulnerabilidades.

Nesse sentido, especialistas e cenaristas vêm apontando oportunidades para o agro que podem ser obtidas a partir de diversas vertentes:

  • Inteligência artificial (IA) aplicada à tomada de decisão: sistemas que processam dados climáticos, de solo e de produção para orientar o que plantar, quando plantar e como manejar de forma mais assertiva.

  • Visão computacional e sensores para pulverização seletiva e monitoramento detalhado de cada planta, reduzindo insumos e custo.

  • Agricultura digital e dados: uso de IoT e Analytics para prever cenários, reduzir riscos e otimizar recursos.

  • Robôs agrícolas e máquinas autônomas para plantio, pulverização e colheita elevam a eficiência e reduzem a dependência de mão de obra.

  • Drones e equipamentos inteligentes para monitorar plantações e aplicar insumos só onde necessário.

  • Rastreabilidade completa da cadeia com tecnologia (como blockchain) garante transparência do campo à prateleira.

  • Uso eficiente da água e solo com sensores e métricas precisas de umidade, compactação e biologia do solo.

  • Edição gênica de precisão para variedades mais resistentes a estresses ambientais e pragas.

  • Produtos biológicos (biopesticidas, biofertilizantes) ganham espaço frente a químicos tradicionais.

Os desafios são os mais variados, mas um setor reconhecido internacionalmente pela sua competitividade, capacidade de poupança e disposição para investimentos em inovação, tem tudo para se consolidar na arena de negócios internacional, ao mesmo tempo em que entrega a sua contribuição para a sustentabilidade do planeta.

 
*Rodrigo Casagrande é conselheiro de administração na Viacredi, cooperativa do Sistema Ailos, e professor de Governança Corporativa nos MBA da FGV.

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Fontes

BOLFE, E. et al. Potencial de expansão agrícola em áreas de pastagem degradadas no Brasil. Revista Agroanalysis, São Paulo, 2024.

VEECK, G. P. et al. CO2 flux in a wheat-soybean succession in subtropical Brazil: a carbon sink. Journal of Environmental Quality, [S. l.], v. 51, n. 5, p. 899-915, 2022.

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