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O papel da educação cooperativa para a inovação

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Cooperativismo deve deixar legado humano

 

Por Maíra Santiago*

Açúcar vendido com vidro moído, para agregar peso e volume e gerar mais lucro para quem vende. Parece insano imaginar uma realidade como essa?

Pois era assim que muitos armazéns funcionavam na Inglaterra, no distante século XIX – para citar apenas um dos exemplos mais emblemáticos.

Ouvimos à exaustão a história dos nossos probos pioneiros de Rochdale. É fácil incorrer em uma aura de romantismo e utopia quando remontamos às origens do cooperativismo. Mas a realidade é bem menos cor-de-rosa.

Em um cenário de concorrência desleal e predatória, a opção pela cooperação não é apenas uma questão ideológica. É uma forma de preservar a sobrevivência. E será que vivemos tempos tão distintos atualmente?

Infelizmente, não.

O poder do coletivo

A humanidade sempre terá problemas para resolver. Colapso ambiental, desigualdade social, poluição, trânsito, saúde mental. Muito se fala em sustentabilidade – que, em uma simplificação, pode ser compreendida como a necessária autorresponsabilidade pelo impacto sistêmico de nossas ações. Ou seja, queiramos ou não, os problemas são sempre “nossos” – da coletividade.

Resolvê-los de modo colaborativo seria a saída mais razoável, portanto.

Contudo, a nossa mentalidade é forjada, desde a mais tenra infância, para um envolvimento egoísta. Se há apenas um lugar no topo do pódio, que seja o meu. Se há apenas poucas vagas na universidade, livre-se de um concorrente. Se um único indivíduo pode ser o CEO, que os demais esmoreçam pelo caminho.

Ainda que iniciativas louváveis venham sendo trabalhadas pedagogicamente para essa mudança de mentalidade, a vida real segue sendo um tanto cruel para muitos.

Cooperação com impacto

Segundo levantamento realizado pelo OBpopRua (Observatório da População em Situação de Rua, ligado à UFMG), na cidade de São Paulo há mais de 100.000 pessoas nessa condição. Ou seja, apenas na cidade de São Paulo há um contingente humano nas ruas maior do que a população de 94% dos municípios brasileiros.

Mas, e daí... o que o cooperativismo e a inovação têm a ver com esse cenário?

Absolutamente tudo.

Olhando para trás, identificamos o quanto nosso movimento é capaz de impactar positivamente seu entorno. Ao experienciar de fato os princípios da doutrina – e amplificar este acesso às comunidades - temos a oportunidade ímpar de forjar um novo tipo de consciência. Não pautada somente em conceitos e abstrações, mas sim na prática vivencial de um modelo de negócios – que é também um modelo econômico – que rompe com as velhas práticas exploratórias.

O foco humano

“As empresas e a economia devem existir por e para as pessoas, não à custa delas”. Essa frase estampa uma das paredes de La Fageda, cooperativa de produção que tivemos a oportunidade de conhecer, por ocasião de um intercâmbio promovido pela Ocesp a Barcelona. Como tantas outras cooperativas, La Fageda exemplifica transformações sociais possíveis, sustentáveis e inspiradoras.

O empreendimento nasce da indignação com as condições oferecidas por estabelecimentos focados em saúde mental – à época, especialmente nos anos 1980, o foco recaía sobre as chamadas “doenças mentais”.

Hospitais psiquiátricos, os chamados manicômios, que serviam meramente como depósito de gente. Pessoas à margem da sociedade que, uma vez segregadas, deixavam de ser incômodas para muitos.

Contudo, o psicólogo catalão Cristóbal Colón, inconformado com tal cenário, liderou a iniciativa. Buscar condições dignas de reintegração social a pessoas com transtornos mentais ou deficiências intelectuais.

Como toda boa inovação, La Fageda surge como solução compartilhada a uma necessidade coletiva.

Por meio do acesso a oportunidades adequadas de trabalho seria possível usufruir condições dignas de vida. O objeto social do negócio sofreu inúmeras alterações ao longo do tempo – mas a premissa nunca foi alterada. Assim, o processo produtivo é que precisa se adaptar às necessidades das pessoas, e não o contrário.

Atualmente, La Fageda tem como carro-chefe a produção de iogurtes, de altíssima qualidade, com uma marca reconhecida na região por sua excelência. Desde o princípio houve a compreensão de que o negócio deveria, por si só, agregar valor aos consumidores. E, uma vez com a viabilidade econômica assegurada, a sustentabilidade social estaria garantida. E assim é!

Conclusão

Fundamental entendermos que a mentalidade orientada ao bem comum antecede qualquer empreitada cooperativista. A identificação de problemas conjuntos e a oportunidade de consecução de soluções compartilhadas são as diretrizes basilares para a inovação em nossos negócios cooperativos.

Mesmo dentro de nossas cooperativas não podemos dar por certo o pressuposto da cooperação. Por isso, é preciso investir na educação contínua de nossas pessoas – cooperados, delegados, coordenadores de núcleo, colaboradores, lideranças, diretores, conselheiros, fornecedores, instituições parceiras e quem mais pudermos influenciar.

Diante de uma oportunidade de inovar, é preciso manter alerta a consciência sobre os impactos desejados, de modo que tenhamos condições de efetivar nossa vocação essencial – desenvolvimento econômico e social, como tão bem fundamentam nossos dois pinheiros. Ambos, em consonância e equilíbrio.

Embora sejamos um movimento com mais de 180 anos de existência, ainda somos disruptivos. Diante de um mundo que pede arrego, pois ainda carrega em grande parte a competição como regra, quem vivencia a colaboração – não apenas como opção conveniente e eventual, mas como escolha, como forma de consumo e de trabalho – compreende que a inovação fundamental é ser fiel às nossas raízes.

 

* Maíra Santiago é diretora-presidente da Cooperativa Coletiva – Educação Corporativa, educadora, roteirista, palestrante, escritora e cooperativista, com mais de 25 anos de experiência em treinamentos e eventos empresariais.

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