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Coafra aplica rastreabilidade a hortifruti e abre novos mercados
Contexto
A paraense Cooperativa Agroindustrial Frutos da Amazônia (Coafra), que atua na comercialização de hortifruti in natura, estava buscando em 2023 ampliar sua carteira de clientes no mercado privado. A ideia era ficar menos dependente dos programas públicos de compra de alimentos da agricultura familiar.
Depois de conquistar seu segundo cliente privado - a rede de supermercados Formosa - a cooperativa foi surpreendida com um novo requisito, que exigiria uma ampla adaptação dos processos internos: a rastreabilidade dos produtos vendidos.
“Recebemos um ofício do supermercado dizendo que no prazo de 30 dias eles passariam a comprar hortifruti apenas de fornecedores que apresentassem a rastreabilidade da produção”, conta Joel Linhares Cavalcante, diretor-presidente da Coafra.
O objetivo era que o consumidor, no momento da compra, pudesse saber exatamente de onde veio aquele alimento e todo o caminho que ele percorreu antes de chegar à prateleira. O pedido levou a Coafra a buscar parceria com uma startup para desenvolver um sistema de rastreamento do zero, o que não só ajudou a cooperativa a reter o cliente como também abriu portas para novos negócios.
Desafios
Segundo relata Joel Cavalcante, a primeira dificuldade enfrentada pela Coafra foi a falta de conhecimento sobre tecnologias de rastreamento. “A gente achava que era algo distante da nossa realidade de agricultura familiar”, lembra ele. “Depois que começamos as capacitações, vimos que não é tão complicado e que qualquer agricultor consegue fazer. Hoje, quem toca todo esse processo é o nosso próprio pessoal administrativo”.
A rastreabilidade dos vegetais frescos é um requisito imposto em 2018 por uma Instrução Normativa Conjunta do Ministério da Agricultura e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O objetivo é garantir a segurança alimentar e ajudar no controle dos resíduos de agrotóxicos e a norma vem pouco a pouco se tornando uma demanda dos varejistas.
Para Cavalcante, o fato de que a Coafra já tinha informações bem estruturadas sobre sua base de cooperados foi fundamental para a implementação rápida do sistema. A maior parte dos produtores da Coafra já tinha o Cadastro Ambiental Rural (CAR), um registro público obrigatório, que contém dados importantes como as coordenadas geográficas e o perímetro da área produtiva.
“Se não tivéssemos as informações organizadas, essa teria sido outra dificuldade. Para os poucos produtores que não tinham o CAR, usamos dados de GPS para fazer a rastreabilidade com a localização exata da propriedade”, explica.
Desenvolvimento
O sistema da Coafra foi desenvolvido em parceria com a Amaztrace, startup de tecnologia que desenvolve ferramentas de rastreamento. A companhia já atendia alguns agricultores de hortaliças folhosas, mas ainda não tinha experiência com nenhuma cooperativa e precisou trabalhar lado a lado com a Coafra para ajustar a solução às características do negócio.
“A cooperativa trabalha com dezenas de produtos, de centenas de cooperados. Como organizar essa rastreabilidade? Adaptamos completamente o sistema para a realidade deles”, explica Marco Failache, sócio-fundador e diretor de tecnologia da Amaztrace. “A partir do momento em que o sistema deu certo, abriram-se outras portas para nós”.
Hoje, a Amaztrace também está trabalhando com a OCB/PA em um projeto de rastreabilidade e gestão agrícola para outras cooperativas.
Os produtos rastreáveis da Coafra chegam ao ponto de venda com um QR code que pode ser escaneado pelo consumidor e que informa todo o percurso daquele vegetal desde a colheita até a prateleira:
- Geolocalização da propriedade
- Número e tamanho do lote
- Data de colheita
- Transporte e distribuição
- Dados cadastrais da cooperativa
Como a Coafra já detinha estes dados, o desenvolvimento inicial não exigiu a participação dos cooperados e foi finalizado no prazo de um mês estabelecido pelo supermercado.
Porém, a cooperativa já está tocando a segunda fase do projeto, em que a rastreabilidade não será limitada aos eventos pós-colheita, mas se estenderá por todo o ciclo de vida do produto desde o plantio. Isso inclui todas as etapas de cultivo, os insumos agrícolas utilizados, os defensivos e as técnicas aplicadas. Para isso, os produtores terão que alimentar o sistema com informações detalhadas após cada intervenção na lavoura.
A ferramenta que está sendo desenvolvida usa inteligência artificial (IA) para captar e registrar as informações mandadas pelos produtores em áudios do Whatsapp, de modo a facilitar a interação. “A nova ferramenta vai ser acessível mesmo para um produtor de baixa escolaridade, que vai poder enviar áudios dizendo, por exemplo, quando fez uma adubação ou qual produto usou”, revela Joel Cavalcante.
Este é mais um desafio listado por ele: a necessidade de familiarizar os cooperados com tecnologias de ponta. “Há agricultores que não concluíram o Ensino Fundamental e que, agora, vão ter uma assistente de IA conversando com eles no Whatsapp. Como lidar com isso e fornecer todas as informações necessárias? Esse tem sido o maior gargalo”, afirma.
A mudança vai exigir um nível de transparência muito maior dos produtores, que podem hesitar em compartilhar todos os passos de suas operações, incluindo despesas de cultivo e vendas. “Nem todos conseguem vender 100% para a cooperativa, alguns têm outros mercados, e por isso podem ficar receosos ou não colocar a informação completa”, admite Cavalcante.
Ele afirma que a cooperativa está trabalhando de perto com os cooperados para solucionar as dificuldades caso a caso e garante que o projeto está evoluindo bem, já foi testado com alguns produtores e deve entrar em operação em 2026.
Resultados
O primeiro resultado concreto da implantação do sistema de rastreabilidade foi a retenção do cliente que estava exigindo a solução, mas também houve a conquista de um segundo cliente onde a cooperativa já entrou oferecendo produtos rastreáveis. Joel Cavalcante prevê que a demanda por esta ferramenta deve crescer à medida que a Anvisa apertar o cerco da normativa.
A Coafra também ofereceu o sistema de rastreabilidade em uma entrega de farinha feita para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ainda que não fosse um pré-requisito da entidade.
Cavalcante argumenta que a rastreabilidade aumenta a confiabilidade do produto e, consequentemente, melhora a imagem da cooperativa. “É uma questão de transparência. Você sabe que está comprando de produtores cooperados, que fazem parte de uma organização que trabalha com preço justo, que tem assistência técnica gratuita, que faz um trabalho social e ambiental”, diz ele.
Próximas iniciativas
Além de lançar a segunda etapa do rastreamento, cobrindo todas as intervenções desde o plantio, a Coafra se mantém pronta para oferecer o sistema para outros clientes que ainda não o utilizam e a abrir novos mercados a partir do uso desta tecnologia.
“Entregamos hortifruti em três grandes redes de supermercados, mas só estamos usando a rastreabilidade em duas. A terceira, que é a maior delas, ainda não começou a cobrar [produtos rastreáveis], mas cedo ou tarde esta exigência vai chegar”, prevê o diretor.
Ele destaca que o produto rastreável não tem um preço intrinsecamente maior que o hortifruti comum, mas argumenta que o custo de manutenção do sistema é baixo, em torno de R$ 500 por mês, um valor que se dissipa completamente frente à comercialização.
Joel Cavalcante se mostra otimista na manutenção do projeto e nos benefícios que a solução deve trazer. “Os problemas iniciais foram superados e a cooperativa ampliou a venda dos itens de hortifruti in natura e recentemente iniciou a comercialização de dois produtos processados. Essa ampliação se deu pela nossa expertise em entregar produtos com qualidade, preço justo, rastreabilidade e continuidade”, conclui.
Contato do responsável pelo case:
Joel Linhares Cavalcante
Diretor-presidente da Coafra
E-mail: cooperativacoafra@gmail.com
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