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A força da cooperação feminina na transformação de comunidades

A força da cooperação feminina na transformação de comunidades

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Cooperativismo proporciona oportunidades de inclusão e protagonismo para mulheres

Por Gabriela Riboli *

Quando mulheres se juntam, muita coisa muda. Em diferentes regiões do Brasil, tenho acompanhado de perto coletivos que nascem da necessidade de geração de renda, segurança e reconhecimento. Vi, repetidas vezes, a cooperação transformar a realidade dessas mulheres, reconstruir autoestima e criar soluções ambientais e sociais altamente importantes para as comunidades em que estão inseridas. É a vida reorganizada por mulheres que decidiram assumir juntas o comando do próprio futuro.

O ponto de partida costuma ser muito mais simples do que parece. Geralmente elas se juntam porque têm algo em comum: uma dificuldade, um filho que estuda na mesma escola, o não enquadramento dentro do mercado convencional de trabalho e, por vezes, as múltiplas violências sofridas.

Elas pensam juntas, considerando todas as realidades, se organizam e cooperam antes mesmo de chamar isso de negócio. O efeito visível é a renda, mas o que mais transforma é a redescoberta da capacidade, da voz e do pertencimento.

Cooperativismo e a força feminina

É nesse ponto que o cooperativismo aparece como estrutura capaz de sustentar e impulsionar esse movimento. Não como algo que chega de fora, mas uma forma de dar estrutura para algo que elas já fazem intuitivamente, que é decidir juntas, trabalhar de forma coletiva, dividir responsabilidades e cuidar umas das outras.

Algo que eu acredito e vejo acontecer é que o cooperativismo oferece algo que muitos modelos de negócio não conseguem garantir, que é a possibilidade de crescer sem abandonar o vínculo com a realidade local. E, talvez o mais importante, mostrar para essas mulheres que elas podem ser protagonistas de um empreendimento dentro desse formato que parece casa, sem seguir a lógica do empreendedorismo individual, competitivo e excludente.

É dessa base que surgem histórias como as da Mundo + Limpo, em São Leopoldo, e das Valentinas, em Gramado.

Mundo + Limpo

A Mundo + Limpo nasceu em 2007, quando mulheres da Vila São Jorge e da Ocupação Justo em São Leopoldo/RS decidiram se unir para fazer alguma coisa juntas. O objetivo era gerar renda de maneira coletiva. Após discutirem e pensarem nas habilidades de cada uma, surgiu a ideia de transformar óleo de cozinha usado em sabão.

Com a dedicação delas e as conexões criadas com a comunidade, a iniciativa foi reconhecida pelo município e integrada ao sistema municipal de coleta de óleo. Isso deu à cooperativa estabilidade de insumo, ampliou a escala de produção e abriu portas para ações de educação ambiental em escolas e espaços comunitários. Com o tempo, surgiram novos produtos, como multiuso líquido e velas aromáticas, fruto de um movimento de reposicionamento comercial e criatividade coletiva.

A evolução dessa cooperativa não é apenas econômica; é também social. Mostra que mulheres que culturalmente seriam destinadas a ficar em casa podem transformar resíduos em renda e vulnerabilidade em protagonismo. Essa mudança é perceptível no olhar das cooperadas, na forma como explicam o próprio trabalho e na certeza de que contribuem para algo maior que elas mesmas.

Coletivo Valentinas

Tem algo na história do Coletivo Valentinas que apesar de trilharem um caminho diferente, é semelhante. O grupo começou como um espaço de convivência promovido pela Assistência Social de Gramado/RS, reunindo mulheres em situação de vulnerabilidade em oficinas de costura, crochê e bordado. A habilidade manual era evidente, mas a falta de formalização limitava a comercialização das peças.

A virada aconteceu em 2025, quando o grupo ingressou em um programa de Incubação de Cooperativas, o AceleraCoop, realizado pela Sicredi Pioneira, que apoia cooperativas a surgirem e fortalecerem seus negócios. Com acompanhamento técnico, elas se formalizaram como cooperativa e reorganizaram todos os processos de produção, precificação, compras, gestão financeira e relacionamento com o mercado.

Essa formalização fez algo maior que abrir as portas para as vendas. Fez com que essas mulheres se percebessem como empreendedoras. A partir desse momento, a autoestima mudou, as conversas mudaram e o trabalho foi mais bem estruturado. Elas passaram a negociar com segurança, apresentar a cooperativa em espaços de divulgação, e sobretudo, perceber que o trabalho que estava ocorrendo ali, tinha muito valor.

Além disso, as Valentinas criaram uma identidade forte ao produzir peças com materiais de reuso. Retalhos de tecido, couro e lonas são transformados em acessórios, bolsas e outros produtos que simbolizam o que elas representam: resistência, criatividade e capacidade de transformar o que já existe em algo novo e cheio de significado.

Cooperativismo e comunidade

Quando coloco essas experiências lado a lado, algumas camadas ficam muito claras. A cooperativa vira espaço para falar, ser ouvida, experimentar lideranças e acessar direitos. A autogestão cria aprendizado e elas aprendem fazendo, decidindo juntas, organizando a forma de trabalho, mediando conflitos, criando novos produtos e reconstruindo processos. E a sustentabilidade econômica surge naturalmente, não como uma pauta única, mas como consequência da criatividade e do cuidado com a comunidade.

Também é verdade que os desafios continuam existindo. A sobrecarga do trabalho doméstico limita o tempo disponível para dedicação ao trabalho. O acesso a crédito ainda é restrito. A burocracia é pesada para quem nunca esteve próxima desse tipo de organização formal. A desvalorização histórica do trabalho feminino ainda é presente. E a violência contra a mulher, de diversas formas, é um problema atual das nossas comunidades.

Ainda assim, apesar de tudo que ainda falta, essas mulheres seguem. Seguem porque não caminham sozinhas e porque descobriram que, quando a vida é organizada em conjunto, as dores ficam mais leves e as possibilidades aumentam.

Se queremos um cooperativismo mais relevante, mais conectado com a sociedade e mais preparado para os desafios do Brasil, precisamos reconhecer, apoiar e potencializar o que essas mulheres já estão fazendo, porque onde mulheres cooperam surgem caminhos que o mercado tradicional jamais conseguiria construir sozinho.

gabriela riboli

*Gabriela Riboli é especialista em cooperativismo que une escuta, inovação e empreendedorismo coletivo para impulsionar grupos e comunidades.

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