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Inovação aberta: como fazer conexão com startups

Relacionamento exige mudança de mentalidade da cooperativa. Conheça os tipos de conexão e os principais cuidados.

GESTÃO DA INOVAÇÃO27/04/202111 minutos de leitura

Quando o professor da universidade de Berkeley, Henry Chesbrough, criou o termo open innovation (inovação aberta, em português), em 2003, ele visava à quebra de um paradigma. Naquela época, ele via que o ambiente acadêmico estava muito desconectado da realidade do mundo dos negócios e, por isso, identificou que era preciso uma abordagem de inovação mais bem distribuída entre os stakeholders, mais participativa e descentralizada.

Dessa forma, a inovação aberta surgiu para ser um contraponto ao conceito tradicional de inovação fechada, na qual as iniciativas são desenvolvidas internamente, sem apoio externo. O problema da inovação fechada é que por mais incrível que a cooperativa seja, ela poderá ter dificuldades para reunir todas as melhores condições para inovar sozinha.

Como o próprio Henry Chesbrough define, a “inovação aberta é o uso de fluxos de conhecimento internos e externos para acelerar a inovação interna e expandir os mercados para o uso externo de inovação, respectivamente”.

Ou seja, é uma via de mão dupla: a cooperativa tira proveito do conhecimento externo para realizar as suas inovações. Ao mesmo tempo, o mercado ganha esse novo conhecimento que foi agregado, formando, portanto, um círculo virtuoso.

Então, na inovação aberta, a inovação surge a partir da interação não só de funcionários, mas também de clientes, cooperados, fornecedores, startups, universidades, concorrentes, entre outros. Assim, ao se conectar a um ecossistema de inovação, as cooperativas têm a chance de acessar conhecimentos e tecnologias que não necessariamente estão "dentro de casa".

É por este motivo que muitas organizações realizam programas de inovação aberta, como os de conexão com startups, que é o tema central deste post. Se você tem interesse em saber mais sobre o assunto, continue a leitura e saiba como sua cooperativa pode tirar proveito disso. Boa leitura!

Conexão com startups: parcerias com resultados positivos

Quando a cooperativa se conecta com startups, principal pilar da inovação aberta, ela pode obter vários benefícios. Ela pode, por exemplo, reduzir o tempo entre o desenvolvimento e a comercialização de um novo produto ou serviço; expandir para novos mercados; diminuir o custo em algumas etapas; gerar ideias e conhecimentos sem pressionar a equipe interna; entre outras coisas.

Mas como adotar a inovação aberta na prática? Atualmente, um dos principais caminhos, adotado por organizações de diferentes portes e ramos, é a conexão com startups, seja por meio de programa próprio ou de parceiros. Afinal, trata-se, de fato, de uma relação ganha-ganha. Prova disso é que já temos vários exemplos de conexão entre cooperativas e startups.

A cooperativa só tem a ganhar ao trazer para si atributos que estão no DNA das startups, como:

Tudo isso e muito mais pode ser incorporado à estrutura de uma cooperativa em caso de conexão com startups. 

Às vezes, os resultados podem ser tão positivos que uma iniciativa pontual pode se tornar permanente, como ocorreu com o programa Inovar Juntos, do Sicredi, que passou de um evento pontual de conexão com startups para um processo permanente de relacionamento dentro da cooperativa.

Atualmente, o programa acontece em dois formatos:

  1. com desafios sob demanda coletados internamente e endereçados às startups;
  2. com desafios focados em apenas um segmento a cada edição.

Após selecionar internamente os desafios, a equipe de inovação do Sicredi, com apoio de áreas de tecnologia e negócios, capta startups potenciais para o desenvolvimento das soluções.

Com três anos de vida e cerca de R$ 1 milhão de investimentos no período, a iniciativa tem números surpreendentes: conectou o Sicredi com mais de 500 startups e gerou mais de R$ 120 milhões em negócios até o início de 2021.

“Os aprendizados das edições iniciais e o amadurecimento do ecossistema de startups no Sicredi e também no Brasil, nos permitiu enxergar algumas oportunidades e experimentarmos ciclos mais flexíveis, gerando assim uma aceleração na cultura dos times em buscar conexões com startups para resolução de problemas ou explorar oportunidades de digitalização dos produtos e serviços”, explica Dagoberto Trento, gerente de Estratégia e Inovação do Sicredi.

Saiba mais sobre este e outros cases de relacionamento com startups no Radar da Inovação, aqui no InovaCoop.

Tipos de conexão com startups

Segundo informações de empresas de inovação, como ACE, Innoscience, StartSe e outras, há pelo menos 4 principais formas de conexão com startups, das mais simples às mais complexas. Vamos conhecê-las:

1) Startup como fornecedora de solução: Após identificar um problema específico, a cooperativa vai ao mercado para contratar a solução de uma startup. Dessa forma, a cooperativa pode encontrar soluções “plug-and-play” inovadoras para gerar melhorias operacionais de forma imediata, sem, necessariamente, desenvolver uma prova de conceito. Esse modelo pode ser indicado para cooperativas que ainda não têm afinidade com o ecossistema de inovação ou têm urgência para resolver um problema.

2) Prova de conceito ou projeto piloto: Nesta modalidade, a conexão parte de uma prova de conceito (também chamada pela sigla PoC, do inglês Proof of Concept) com metas específicas atreladas a sucesso no curto prazo. Neste caso, pode envolver uma ou mais startups concorrendo ou cooperando para gerar a prova de conceito. Se a meta for cumprida dentro do prazo, a startup pode ser contratada ou o serviço pode ser oferecido aos clientes e/ou cooperados. Ou seja, a parceria só ocorre após o resultado da PoC.

3) Laboratório para aceleração: Esta etapa já demanda mais recursos porque, em geral, a organização disponibiliza às startups atributos como capital, espaço físico, networking, ferramentas profissionais, recursos humanos, mentorias, entre outros. Para a cooperativa, que traz a startup para “dentro de casa”, é uma forma de adquirir a cultura de inovação e liderar a possível criação de soluções inovadoras que, no futuro, possam ser incorporadas. Requer mais tempo que as opções anteriores.

4) Corporate Venture: É a forma mais complexa de conexão com startups. Porque é neste modelo que a organização pode realizar investimentos no empreendedor, adquirindo participação minoritária, controle parcial ou até total. Ao investir ou adquirir uma startup, a organização precisa avaliar o mercado, colocar os riscos na balança e ter uma boa relação com os empreendedores para que o negócio possa crescer de maneira saudável. Explicamos tudo sobre Corporate Venture neste outro post.

Segundo a Innoscience, consultoria de inovação corporativa, independentemente do formato de conexão escolhido, o relacionamento ocorre em dois modelos: batch ou contínuo.

  • Modelo de batch: as inscrições ficam abertas por um período determinado de tempo, as startups são avaliadas pela corporação de forma conjunta e os projetos, concomitantemente testados.
  • Modelo contínuo: as inscrições ficam abertas de forma contínua e as startups são avaliadas separadamente ou a conexão ocorre sem inscrições nem coordenação geral, fazendo cada área à sua maneira.

Usando novamente o Sicredi como exemplo, o programa Inovar Juntos utiliza as duas formas: batch e contínuo. É possível começar da maneira mais simples (batch) e depois, após um determinado período, avançar com mais segurança para o modelo contínuo.

Além disso, o próprio nível dos desafios a serem solucionados pode evoluir com o tempo. No Sicredi, a diretoria preferiu problemas de baixo risco para a primeira edição do programa. Só depois de testar o método que a cooperativa optou por buscar soluções para problemas de mais impacto.

Como se relacionar: boas práticas

Agora que você já sabe as maneiras de se conectar com startups, vamos conhecer algumas boas práticas para que a experiência seja bem-sucedida. Se não houver preparação, em especial do ponto de vista cultural, este tipo de iniciativa pode enfrentar alguns problemas.

Em seu livro “A Estratégia da Inovação Radical”, Pedro Waengertner afirma que o estabelecimento de um bom design organizacional é prioridade para ter sucesso na conexão com startups. Além disso, é importante saber que trabalhar com startups precisa ser uma consequência da estratégia da cooperativa e um objetivo claro do plano de inovação.

Por isso, antes de iniciar ou participar de qualquer programa de relacionamento com startups, é fundamental saber o que se espera da conexão e estar atento a uma série de aspectos. Veja alguns a seguir:

Agilidade: Imagine que, para ser contratada, uma startup precise passar por diferentes departamentos da cooperativa e enfrentar idas e vindas com contratos, reuniões, burocracias etc. Isso poderia atrasar e até perder o “timing” da inovação. Portanto, organizações muito burocratizadas precisam, antes de tudo, trabalhar a agilidade e rapidez de seus processos internos. Mesmo que não seja possível mudar toda a cultura da cooperativa, é recomendável que pelo menos a equipe ou pessoa à frente da iniciativa - em contato tanto com a startup quanto com a liderança - seja ágil nas decisões para que o projeto flua bem. Reuniões curtas e frequentes são essenciais nesse sentido.

Customização: A cooperativa precisa entender também que, normalmente, a startup soluciona uma única coisa muito bem, com grande foco no problema que se dispôs a enfrentar. Portanto, não adianta “forçar” a startup a querer solucionar muitas coisas ao mesmo tempo.

Soluções e não tecnologia: Vale sempre reforçar que tecnologia é um meio, não um fim. Por isso, a cooperativa não pode incorrer no erro de buscar o que há de mais moderno em tecnologia. Ao fazer isso, ela deixa de focar na solução do seu problema e a conexão com a startup pode perder o sentido. Portanto, lembre-se de focar na solução e não na tecnologia.

Autonomia: A essa altura você já deve ter reparado que o choque de cultura pode acontecer. A cooperativa que decide trabalhar com startups precisa ter em mente que não será possível controlar todo o processo, pois a startup precisa de autonomia. Não se pode esperar que as startups se adequem a processos rígidos de controle, pois, no final das contas, isso poderá ser prejudicial à sua natureza inovadora. O ideal, portanto, é que a cooperativa tente se adequar à forma de trabalho das startups, que geralmente utilizam metodologias ágeis de gestão.

Aprendizado: É inegável também que, com o passar do tempo, o relacionamento vai gerando aprendizados e conhecimentos diversos. É importante aproveitar desse relacionamento para estimular ainda mais a cultura de inovação na organização e implementar novas ferramentas e métodos ágeis. Afinal, numa conexão com startup, não se trata apenas de contratar uma solução, mas tentar aprender com ela as suas características inovadoras.

Visão de longo prazo: Aqui no InovaCoop, sempre ressaltamos que inovação é um processo, com começo, meio e fim, e também um ato contínuo, que precisa ser executado com uma visão de longo prazo. Dessa forma, não adianta esperar resultado do dia para a noite. Afinal, assim como todo processo de inovação, um programa de conexão também demanda testes para encontrar o melhor modelo de relacionamento com startups. Além disso, é essencial realizar uma avaliação ao final da experiência para mostrar os resultados para as lideranças e conseguir manter a inovação em ciclos contínuos.

Comece pequeno: Caso a sua cooperativa esteja em dúvida sobre qual modelo de conexão, saiba que cada um tem suas vantagens e desvantagens. Por isso, a decisão precisa sempre levar em conta o estágio de maturidade da cooperativa em relação à inovação e também o quão preparada a organização está para receber as startups. A dica, portanto, é começar pequeno e entender que o erro, caso aconteça, faz parte do processo. O importante é errar rápido para ajustar a rota e aprender com isso.

Conclusão

Uma forma de reduzir riscos em relacionamentos com startups é começar - o quanto antes - a envolver toda a estrutura na iniciativa, começando pela liderança, que precisa dar autonomia real aos projetos de inovação. Quando ocorre esse envolvimento a chance de sucesso é muito maior e o potencial da parceria é enorme.

Conforme falamos ao longo do texto, conectar-se com startups é apenas uma das formas de colocar a inovação aberta em prática. E que pode acontecer tanto por iniciativa própria como de parceiros. Por isso, pensando em ajudar as cooperativas com esse desafio, o Sistema OCB está preparando o lançamento de um programa de conexão com startups para o cooperativismo brasileiro. O lançamento será dia 10 de maio!

No próximo post, você vai entender mais sobre os processos que levam à conexão, como a identificação das dores que precisam ser endereçadas a uma startup. Fique ligado!

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