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Por que o cooperativismo precisa inovar?

Inovar é uma maneira de se adaptar a novas situações e ambientes. 

GESTÃO DA INOVAÇÃO30/06/20208 minutos de leitura

Inovar é uma maneira de se adaptar a novas situações e ambientes. É uma forma de evoluir constantemente e se manter competitivo em qualquer cenário. Esta explicação sozinha talvez já fosse suficiente para explicar por que o cooperativismo precisa inovar. Aliás, não apenas o cooperativismo, mas todos os segmentos econômicos.

Quando estudamos sobre inovação no ambiente de negócios vemos que está muito ligada a conceitos como impacto social e econômico. Há, inclusive, estudos - como este de 2015 - que indicam que a inovação agrega valor às instituições e que empresas que investem em projetos de inovação obtêm melhores resultados ao longo do tempo.

Além disso, a inovação estimula a colaboração, a sustentabilidade, a igualdade e o compartilhamento. Ou seja, tudo que o cooperativismo é desde sua criação. Esses elementos sinalizam que o cooperativismo tem tudo para ser protagonista na nova economia.

Entretanto, é preciso conciliar a inovação às premissas do cooperativismo. Afinal, o setor é regido por sete princípios que precisam ser levados muito a sério para manter vivo o espírito do cooperativismo.

Em outras palavras, é preciso conciliar a dinâmica das cooperativas ao ritmo intenso de transformações do mercado. Por isso, vamos falar aqui sobre como a inovação é estratégica para a perenidade das cooperativas.

Cooperativismo e inovação

Como falamos, o cooperativismo tem características em sintonia com a inovação, porém, em sua própria configuração pode trazer algumas barreiras. Nesse sentido, o Documento-Base do 14º CBC (Congresso Brasileiro do Cooperativismo) traz elementos muito importantes para compreender o processo de inovação em cooperativas.

Um dos motivos elencados no documento do 14º CBC diz respeito ao modelo administrativo do cooperativismo, baseado numa estrutura hierárquica rígida e com decisões centralizadas. De acordo com o documento, tal característica pode ser prejudicial à inovação. Afinal, esta exige organizações ágeis, com estruturas “flexíveis e aptas a se relacionar com clientes e colaboradores que já nasceram no mundo digital”.

O processo de constituição e funcionamento de uma cooperativa tem muitas regras e, em alguns ramos, tem procedimentos altamente regulados. Excesso de burocracia pode também tornar mais lentos os processos, trazendo mais dificuldades para mudanças rápidas, algo inerente à inovação.

Inovação e diversidade

A pouca diversidade existente nos quadros das cooperativas também pode ser um entrave ao processo de inovação. Conforme dados da OCB, as mulheres representam apenas 25% do quadro de dirigentes de cooperativas no Brasil.

Além disso, de acordo com o Documento do 14º CBC, “só é possível reconhecer os problemas da sociedade se houver representatividade da população nas organizações”. Ou seja, de forma a “compartilhar diferentes pontos de vista e cocriar soluções que de fato sejam relevantes para diferentes pessoas”.

A afirmação é consonante ao estudo da McKinsey que alia a diversidade não apenas à capacidade de inovação, mas ao desempenho das organizações. Conforme dados levantados em 2017 pela McKinsey, “empresas no quartil superior para diversidade de gênero em suas equipes executivas eram 21% mais propensas a ter lucratividade acima da média do que as empresas no quartil inferior”.

Ainda segundo o estudo da McKinsey, é benéfica à inovação a “diversidade de formação, experiências, histórias de vida, conhecimentos, competências, idades e pensamentos nos grupos decisores”. Incluir pontos de vista variados é uma das maneiras de entender as dores da persona alvo da inovação[1]  e, assim, desenvolver novas maneiras de atendê-la.

Em outras palavras, quando a instituição tem representantes de diversas faixas etárias, gêneros, níveis sociais etc., é mais fácil entender os diversos olhares do público. Assim, a organização incorpora mais elementos à decisão, que tende a ser mais eficiente.

Uma das maneiras por meio da qual o cooperativismo pode fomentar a inovação é com o desenvolvimento de ecossistemas. Um ecossistema é um conjunto de fatores de estímulo à interação e cooperação, entre diferentes atores, que se tornam pólos criativos onde é possível estimular a troca de experiências, o reconhecimento da comunidade, gerar redes de indicação e a melhora de habilidades.

Vantagens do modelo cooperativista

É preciso ponderar dois pontos neste momento. Primeiro, embora com menos regulação em alguns casos, empresas mercantis também enfrentam desafios ao inovar. Também é característico de alguns mercados a centralização das decisões e a falta de diversidade.

Além disso, grande parte das empresas, inclusive startups que nasceram mergulhadas em inovação, enfrentam dificuldades para incorporar e praticar o que cooperativas fazem por natureza e que são essenciais à inovação. Ou seja, capitalismo consciente, valor compartilhado, comércio justo, sustentabilidade, liderança colaborativa e empoderamento criativo.

Sob este aspecto, o cooperativismo apresenta muitas vantagens. E, por isso, é muito importante preservar suas raízes, conforme pontua Ênio Meinen, diretor de Operações do Bancoob e autor do livro Cooperativismo Financeiro: virtudes e oportunidades.

Para ele, enquanto as empresas buscam voltar o foco para os clientes, o cooperativismo sempre teve foco no cooperado. “Fala-se agora em foco DO cliente (em vez foco NO cliente). Ora, no cooperativismo o foco sempre foi DO cooperado, uma vez que ele é o dono do empreendimento.”

Outro ponto muito importante é, na verdade, um exemplo que vem de dentro do próprio cooperativismo. As cooperativas de crédito têm se mostrado excelentes exemplos de inovação. Por vezes, elas apresentam mais agilidade no desenvolvimento de processos do que instituições financeiras tradicionais. Exemplo foi a iniciativa de unir cooperativas financeiras a fintechs como estratégia para ganho de mercado. A aproximação ocorreu em meados de 2018, num encontro - noticiado pela Época Negócios - que reuniu cooperativas, lideranças de inovação no setor financeiro e representantes Banco Central.

Ou seja, é perfeitamente possível inovar no cooperativismo. O que falta é encontrar o caminho. E é disso que vamos falar agora.

Modelo cooperativista de inovação

Como vimos, os princípios do cooperativismo não são impeditivos para criar uma cultura de inovação. Pelo contrário, se explorados da maneira correta, as premissas cooperativistas podem ser grandes aliadas da inovação. Basta entender tais características e aprender a inovar por conta própria, pois não existem receitas prontas para seu modelo de negócio.

Uma maneira das cooperativas não ficarem para trás será investindo numa mudança de mindset e de cultura, com foco em processos de inovação que funcionem bem para elas. Ao longo dessa jornada de construção da cultura de inovação, as cooperativas podem buscar informações com empresas mercantis ou cooperativas que já estejam inovando. Afinal, os aprendizados e a inspiração obtidos por elas podem ser de grande valia.

A cultura organizacional, inclusive, é um dos fatores mais importantes para a inovação. E isso, de acordo com pesquisa feita pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) em 2019, vale para as empresas e para o país como um todo. A mudança da cultura da cooperativa envolve a mudança de comportamento das pessoas.

Desenvolvimento de habilidades comportamentais

Então, como em qualquer organização, a inovação em cooperativas depende do desenvolvimento de soft skills - veja aqui 10 soft skills listadas pela CNI. Trata-se de um conjunto de habilidades e competências intrinsecamente relacionadas ao comportamento das pessoas e que, de acordo com pesquisa realizada pelo LinkedIn, têm sido valorizadas pelas empresas.

Ou seja, características que vão permitir aos gestores e colaboradores de cooperativas navegar pelas estruturas hierárquicas para criar uma cultura de inovação. Algumas das habilidades que podemos citar como positivas neste processo são:


 

Para qualquer tipo de organização, essas habilidades representam a capacidade de atuar com a agilidade necessária ao processo de inovação. Às cooperativas, irão possibilitar aumentar ainda mais seu impacto social e econômico na sociedade.

Afinal, por seguir os princípios do cooperativismo, uma cooperativa age no sentido de proporcionar gestão e controle democrático dos associados. Ao adquirir uma soft skill como a mentalidade digital, por exemplo, esse princípio pode ser ainda melhor explorado. Ou seja, usar recursos tecnológicos para chegar ainda mais perto e dar ainda mais voz aos cooperados. É o caso, por exemplo, da realização de Assembleias Gerais Ordinárias virtuais.

Cases de inovação no cooperativismo

Algumas organizações já têm encontrado seus caminhos para inovar no cooperativismo. Vamos falar sobre algumas iniciativas de inovação que têm começado a dar resultados para as cooperativas.

  • Sicoob: criou um laboratório para desenvolver soluções de TI baseado em metodologia ágil batizado de Cooplab (Laboratório de Inovação do Cooperativismo Financeiro), que reúne times de tecnologia e negócios.
  • Seguros Unimed: crou uma plataforma tecnológica batizada de Stormia que integra mais de 350 cooperativas singulares. A tecnologia atua como marketplace e agregador de informações.
  • Coopercarga: a Cargon é uma startup criada para atuar como operadora logística virtual que nasceu da iniciativa de inovação da Coopercarga. A Cargon conecta empresas e profissionais em todo o País
  • Sicredi Pioneira: a dedicação exclusiva de um colaborador à inovação deu origem ao Goog, base de informações para integração de novos colaboradores.

Confira mais iniciativas de inovação no Radar de Inovação.

Conclusão

O cooperativismo tem algumas características que tornam mais lentos os processos internos que prejudicam o dinamismo necessário à inovação. Entretanto, a abertura ao novo, com o desenvolvimento de soft skills por parte dos colaboradores e a tomada de uma postura questionadora por parte das lideranças são capazes de reverter o quadro e o desenvolvimento de uma cultura voltada à inovação.

Mesmo a mais rígida estrutura e a regulação mais severa podem ser contornadas para dar espaço a iniciativas de inovação dentro do cooperativismo. Há diversos exemplos dentro e fora do segmento que servem de inspiração para acelerar ainda mais o movimento.

O importante é entender que o cooperativismo já tem, em sua essência, características que empresas de tecnologia de todo o mundo ainda não sabem como incorporar. Ao falar de inovação, é preciso, portanto, que o cooperativismo se baseie em suas forças para disseminar ainda mais seus princípios de colaboração e democracia.

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Coonecta