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ESG no cooperativismo: exemplos e boas práticas

Cooperativas têm os princípios ESG no DNA e apresentam uma série de iniciativas em prol da inovação sustentável

TENDÊNCIAS26/05/202210 minutos de leitura

A sigla ESG - abreviatura de Environment (Ambiental), Social (Social) e Governance (Governança) - aparece com cada vez mais frequência no ambiente econômico e nas pesquisas de tendências. Durante a pandemia, ele ganhou ainda mais destaque.

Além disso, as decisões de gestores estão se tornando frequentemente relacionadas com o tema - e o cooperativismo tem um lugar de destaque nesse movimento.

O termo foi criado em 2004, em uma publicação chamada Who Cares Wins, iniciativa conjunta entre o Banco Mundial e a organização Pacto Global. Seu conceito trabalha nos três seguintes pilares:

  • Environmental (ambiental): práticas corporativas que concernem à conservação do meio ambiente. Isso engloba temas como poluição da água e do ar, eficiência na produção e consumo de energia, mudanças climáticas, emissão de carbono na atmosfera e desmatamento.
  • Social (social): tratamento da instituição no relacionamento com as pessoas e a comunidade ao seu redor. Estão inclusos assuntos como proteção de dados, privacidade, promoção de diversidade na equipe, programas de desenvolvimento socioeconômicos, respeito à legislação trabalhista, entre outros.
  • Governance (governança): princípios aplicados na administração da organização. Envolve o relacionamento com governos, políticos e poder público, efetividade de ouvidoria, disponibilização de um canal de denúncias, composição do conselho, estruturação do organograma, transparência e afins.
  • Neste artigo, vamos entender como o ESG é capaz de gerar valor, como ele se conecta com o cooperativismo e ver exemplos de como as cooperativas vêm aplicando políticas de inovação sustentável. Aproveite a leitura!

Criando valor

A pesquisa O premium de ESG: novas perspectivas sobre valor e performance, realizada pela consultoria McKinsey, realça a importância das práticas sustentáveis. O levantamento apurou que a maioria de executivos e profissionais de investimentos acreditam que a execução de programas sociais, ambientais e de governanças geram valor em curto, médio e longo prazo.

A PwC demonstra que grande parte dos investidores aceitam até mesmo sacrificar a lucratividade no curto prazo para lidar e implementar políticas ESG.

As práticas de ESG são valorizadas, inclusive, durante processos de aquisição, elevando as quantias envolvidas. O estudo aponta que os executivos estariam dispostos a pagar um preço até 10% maior no processo de aquisição de uma outra organização com atitudes positivas de ESG.

Um outro relatório da McKinsey listou cinco elos para a criação de valor através da implementação do ESG de maneira sistemática:

  1. Crescimento de receita: o ESG tem a capacidade de atrair a preferência dos compradores. Mais de 70% dos consumidores de diversas indústrias pagariam até 5% a mais por um produto sustentável. A solidez das medidas de sustentabilidade também facilita a obtenção de licenças e a expansão para novos mercados.
  2. Redução de custos: a execução eficaz do ESG auxilia no combate a aumento de gastos operacionais, como os relacionados a matéria-prima, água e carbono. A consultoria registrou que esse fenômeno pode afetar o lucro operacional em até 60%.
  3. Redução das intervenções regulatória e legais: a consistência nas políticas de ESG ajuda a reduzir o risco da instituição ser alvo de alguma ação governamental adversa. Mais ainda, tal solidez gera suporte do poder público, aliviando pressões regulatórias e abrindo a possibilidade da busca de subsídios, por exemplo. Dessa forma, é possível ter menos pressão regulatória e maior grau de liberdade estratégica. 
  4. Aumento da produtividade dos funcionários:  uma proposta ESG coerente pode contribuir na atração e retenção de talentos qualificados, melhoria na motivação dos colaboradores inspirados pelo senso de propósito e, assim, aumentar a produtividade geral.
  5. Otimização de ativos e investimentos: políticas corporativas conscientes têm a capacidade de melhorar os retornos sobre investimentos com alocação de recursos em oportunidades promissoras e sustentáveis.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Apesar da amplitude e heterogeneidade do conceito, uma boa base para suportá-lo está nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Eles compõem uma agenda global que tem como pilares: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parcerias. Conheça os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável:



ESG e cooperativismo

Ricardo Voltolini, CEO da consultoria Ideia Sustentável e da Plataforma Liderança com Valores, defende que as cooperativas “não precisam fazer muito para serem sustentáveis, porque já nasceram sustentáveis”. A tese surge da premissa de que, ao contrário das empresas mercantis, as cooperativas são geridas com base em princípios afinados com conceitos de sustentabilidade.

O Sescoop/SP também defende uma abordagem semelhante, na cartilha ESG, ODS e Cooperativismo: “Antes mesmo de se propor os critérios ESG nas organizações, sob a perspectiva de desenvolvimento que contempla o tripé econômico, social e ambiental, o modelo cooperativista sempre esteve atento à perspectiva sistêmica de um desenvolvimento perene e apoiado sobre bases sustentáveis”.

Em seminário organizado pela OCB em parceria com a Apex-Brasil, Fabíola Nader Motta, gerente-geral da OCB, apontou que o objetivo do cooperativismo é promover melhores condições de vida para as pessoas. Isso passa pela valorização do meio ambiente e desenvolvimento das comunidades locais.

Ainda assim, as cooperativas precisam investir na estruturação de suas práticas ESG. Os valores devem ser traduzidos em valores e métricas mensuráveis - e isso pode representar um grande desafio. 

O cooperativismo social

Em entrevista ao HSM Management, Emanuelle Marques de Moraes, gerente do Instituto Sicoob, defende o caráter civilizatório do cooperativismo. “Ele convoca a sociedade para o trabalho colaborativo, para o senso de comunidade”, argumenta.

Ela acrescenta que o cooperativismo “não está focado no individualismo, mas no ganho coletivo, o que já traz um aspecto social muito relevante, de gerar consciência que leva à ação”. As cooperativas de crédito ainda contribuem para o desenvolvimento regional, diz Moraes, pois mantêm o dinheiro circulando dentro da comunidade, gerando emprego e renda.

Outro ponto de atenção social levantado pela gerente se dá na preocupação com a diversidade. “O desafio não é só de gênero, mas também racial, de pessoas com deficiência, LGBTQIA+ e, mais recentemente, da terceira idade, no chamado etarismo. Uma organização tem que ser reflexo da sociedade”.

Na 57ª edição de seu Boletim de Análise Econômica, a OCB argumenta que, ainda que o cooperativismo já traga princípios ESG em seu DNA, as cooperativas não devem deixar de investir na área. A recomendação está sendo seguida, uma vez que há uma série de cooperativas dando bons exemplos de abordagem ESG. Vejamos algumas delas:

Cocamar: sustentabilidade no campo

A Cocamar Cooperativa Agroindustrial soma 97 unidades operacionais, espalhadas nos estados do Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. A instituição reúne mais de 16 mil cooperados que atuam na produção de soja, trigo, café, milho e laranja. A esses números notáveis, ela ainda acrescenta mais um: quase 40 projetos sustentáveis.

A cooperativa relaciona suas iniciativas conforme seus impactos nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Um deles, por exemplo, é o Terra Urbana, voltado à produção de verduras e legumes em espaços urbanos ociosos, beneficiando famílias de baixa renda e alinhado ao primeiro ODS.

Produção de soja sustentável

Enquanto cooperativa agropecuária, a questão ambiental se apresenta como a mais premente para o ESG da Cocamar. Diante disso, a instituição norteia sua produção de soja por meio de uma política sustentável durante todas as etapas da cadeia produtiva que envolve o grão.

As práticas sustentáveis começam na produção da semente, seu beneficiamento e manejo do solo para cultivo. Isso se dá com o emprego de métodos de preservação do ambiente, utilização de tecnologias durante a lavoura e a colheita. As boas práticas seguem todo o caminho produtivo, até a distribuição de produtos ao mercado.

Não à toa, a cooperativa ingressou no Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), a maior rede de sustentabilidade do planeta. No ano passado, a Cocamar foi certificada com o selo Ouro ODS.

Sicredi: parcerias e intercooperação

Com mais de 5 milhões de associados distribuídos por 24 estados brasileiros, a cooperativa de crédito Sicredi também reúne medidas em prol da sustentabilidade. A instituição é integrante do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) para os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Ao notar que a demanda por crédito para financiamento de projetos de energia solar crescia em uma proporção que a cooperativa não era capaz de atender, a Sicredi firmou uma parceria. Junto da International Finance Corporation (IFC), a instituição formou uma linha de crédito de aproximadamente R$ 600 milhões para financiar energia solar a seus cooperados.

Segundo Tathyanne Gasparotto, diretora de regiões da Climate Bonds Initiative: “a emissão do Sicredi demonstra a grande oportunidade que as instituições financeiras têm de impulsionar o mercado de títulos verdes (green bonds) e a economia do Brasil de maneira sustentável. Esperamos que essa operação seja um grande passo para o setor de energias renováveis no país”.

Se quiser compreender como se deu o desenvolvimento desse projeto, contamos a história dessa iniciativa com detalhes no Radar da Inovação.

A união faz a força

Vencedora do prêmio SomosCoop 2020 na categoria Intercooperação, o projeto “A energia que nos une” é fruto de uma parceria entre a Sicredi e a Certel, cooperativa do ramo de eletricidade. A iniciativa culminou no financiamento para a nova hidrelétrica Vale do Leite, fortalecendo a produção e distribuição de energia limpa.

Ao todo, foram captados quase R$ 50 milhões para a execução do projeto, que tem conclusão prevista para o final de 2022. A estimativa é de que, de forma direta ou indireta, quase 300 mil pessoas sejam beneficiadas com o início da operação da hidrelétrica. O Radar da Inovação também contou o desenvolvimento dessa iniciativa conjunta.

Unimed: políticas sustentáveis

O sistema Unimed, que é composto por 341 cooperativas singulares, desenvolveu diretrizes ESG por meio de sua Política Nacional de Sustentabilidade do Sistema Unimed (PNSSU).

Calcado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a PNSSU conecta as ações de sustentabilidade coordenadas pela Unimed do Brasil para o Sistema Unimed. A estrutura é baseada em três dimensões (saúde social, saúde econômica e saúde ambiental) e 13 temáticas, com 12 objetivos essenciais e três complementares.

Em um editorial, Luiz paulo Tostes Coimbra, presidente da Central Nacional unimed, defendeu que “os pilares do ESG estão inseridos em nossas práticas, resultando em uma integração sistêmica, com ações coordenadas e complementares às das singulares, federações e empresas da marca; sob a coordenação da Unimed do Brasil”.

Liberando o potencial do ESG

O Fórum Econômico Mundial defende que a prática do ESG se inicia com iniciativas das lideranças e lista cinco ações para que os gestores possam atingir o potencial sustentável de suas organizações:

  1. Envolver-se com as demandas das partes interessadas: consumidores, reguladores e cooperados querem ver evidências dos efeitos das políticas ESG. Apenas transparência não basta, é necessário mostrar resultados.
  2. Atender ao interesse dos investidores: instituições com práticas sólidas de ESG atraem investidores qualificados. No caso das cooperativas, iniciativas sustentáveis vão atrair mais cooperados ambiental e socialmente conscientes.
  3. Dominar as narrativas: as práticas e resultados das medidas de ESG de cada organização devem ser usados para diferenciar seus negócios aos olhos do mercado. Para isso, é necessário estar atento às novas demandas.
  4. Compreender os dados: é importante ter a capacidade de entender e comunicar as informações dos resultados ESG. A comunicação efetiva dos dados é fundamental para que o impacto das iniciativas sustentáveis seja compreendido pelos públicos de interesse.
  5. Ter uma abordagem ampla: os fatores ESG têm de ser levados em conta nas decisões de todas as áreas da cooperativa, desde o desenvolvimento estratégico até a execução das tarefas.

Conclusão

O mundo está mudando e pedindo instituições mais sustentáveis e conscientes. Essa procura pela adaptação às novas demandas sociais, ambientais e de governança faz com que o ESG atue como um impulso na busca pela inovação.

Como vimos, o cooperativismo nutre laços com o ESG antes mesmo de o ESG existir enquanto conceito sistematizado. Desde que nasceu, o modelo cooperativista preza pela sustentabilidade ambiental e social e uma governança democrática e transparente. Ou seja, segue atual e inovador.

Não é por menos que muitas cooperativas estão entre os principais atores da inovação sustentável. 

Conteúdo desenvolvido
em parceria com

Coonecta