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Economia digital e as oportunidades para o Ramo Trabalho

Você já notou a quantidade de profissões que surgiram com a economia digital? Estamos falando de funções relativamente novas, mas que já ocupam milhões de pessoas, são classes inteiras de trabalhadores que surgiram por conta das novas tecnologias.

TENDÊNCIAS13/07/202112 minutos de leitura

Você já notou a quantidade de profissões que surgiram com a economia digital? Por exemplo: motorista de aplicativo, entregador de aplicativo, shopper, entre muitas outras. Estamos falando de funções relativamente novas, mas que já ocupam milhões de pessoas. São classes inteiras de trabalhadores que surgiram por conta das novas tecnologias.

Para se ter ideia, um estudo do Instituto Locomotiva de 2019 apontou que 5,5 milhões de brasileiros estão cadastrados como motoristas de aplicativos nos principais apps de transporte de passageiros. Por outro lado, como a plataforma intermedeia a relação entre o consumidor e o fornecedor do serviço, não há uma relação empregatícia ou contrato no formato da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Assim, este contingente não possui acesso aos direitos trabalhistas previstos em nossa legislação, como salário mínimo, limitação de jornada, seguro, férias etc. A relação estabelecida nessas plataformas é empreendedora e autônoma.

O caso dos motoristas de aplicativo é somente um dos exemplos mais visíveis de como novas classes de trabalhadores estão surgindo na economia digital sem direitos mínimos que os amparem. Existem diversos outros setores impactados, como o de hospedagem, entregas e prestação de serviços em geral, para citar apenas alguns.

Além do crescimento de novas profissões que já nascem na informalidade, existe ainda o processo de informalização das profissões já existentes. Para se ter ideia, a informalidade atinge 41,6% dos trabalhadores brasileiros, segundo estudo de 2019 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Essa precarização tem suscitado uma série de preocupações em relação às condições de trabalho, seja de classes tradicionais, seja dos chamados infoproletários. Mas é em meio a esse contexto complexo e de muitas mudanças que as cooperativas do Ramo Trabalho, Produção de Bens e Serviços ganham importância fundamental.

Neste post, vamos entender um pouco mais sobre essa realidade, a reorganização do ramo e quatro tendências que impactam as cooperativas de trabalho. Boa leitura! 

Reclassificação do Ramo Trabalho

Como se sabe, para facilitar a organização e representação, as cooperativas foram divididas em ramos. Desta forma fica mais fácil atuar em favor destes ramos junto aos governos, tribunais de justiça e instituições legislativas.

Até 2019 existiam 13 ramos do cooperativismo no Brasil. Em 2020, após uma avaliação técnica minuciosa dos benefícios para atuação em prol das cooperativas no processo de representação institucional, passou-se para uma estrutura de sete ramos.

Essa modernização vem para simplificar e garantir que o Sistema OCB fique ainda mais próximo da realidade das cooperativas. O ramo que teve a mudança mais significativa foi justamente o do Trabalho, que passou a se chamar Trabalho, Produção de Bens e Serviços.

O novo ramo veio para unificar cooperativas que estavam representadas em diferentes categorias, mas que possuem uma característica comum: prestam serviços especializados a terceiros ou produzem bens.

Após a reclassificação, o ramo ficou ainda mais diversificado. Assim, as cooperativas deste ramo foram subdivididas em treze segmentos: assistência técnica; confecção; consultoria e instrutoria; cultura e lazer; educação; gestão de resíduos; manutenção, conservação e segurança; mineral; produção artesanal; produção industrial; sociais; tecnologia e inovação e outros serviços.

Tendência 1: Cooperativismo de plataforma

Chegou a hora de falar das tendências para este ramo. A primeira que destacamos tem a ver com um tema em alta: cooperativismo de plataforma. Como já se sabe, a economia digital está promovendo profundas mudanças nas relações de trabalho, causando um cenário de precarização.

Tal cenário se deve, em grande parte, ao modelo de organização que mais cresceu na nova economia digital: as plataformas. Elas atuam como intermediadores de transações e têm a capacidade de desregular setores inteiros. E conseguem isso porque criam um ambiente digital confiável que facilita as transações entre produtores e consumidores. Ao fazer isso, permitem que um grande contingente de trabalhadores passe a prestar serviços diretamente aos consumidores.

Então, um consumidor não precisa mais contratar uma empresa para ter acesso ao serviço desejado. Ele contrata diretamente o trabalhador – por meio de uma plataforma. Assim, a relação empresa-trabalhador deixa de ser imprescindível nesse processo. No momento que é substituída pela relação consumidor-trabalhador, os vínculos trabalhistas existentes entre a empresa e o trabalhador deixam de existir.

Quer exemplos? Aplicativos de transporte permitiram que qualquer pessoa com um carro pudesse prestar serviços de transporte de passageiros; aplicativos de delivery ou entregas, que qualquer pessoa com uma moto pudesse prestar serviços de motofrete; e assim por diante.

O custo disso, em muitos casos, tem sido a precarização do trabalho. Como as plataformas se colocam como intermediadoras, os prestadores se habilitam para prestar serviços pela plataforma, de maneira autônoma. Na maioria das vezes seus prestadores de serviços não são contratados como funcionários da plataforma. Vide o caso dos entregadores e motoristas de aplicativo.

É neste contexto que cooperativismo ganha ainda mais importância, pois tem a capacidade de ser a solução para tal realidade, organizando trabalhadores dos mais diversos setores para prestarem serviços de maneira autônoma e coordenada, atentando para os princípios e valores cooperativistas e seguindo o que preconiza a legislação cooperativista.

Vale destacar que as cooperativas não visam lucro, mas a melhoria da qualidade do trabalho e da remuneração de todos.

O ramo tem a capacidade de, realmente, tornar os trabalhadores empreendedores, como ocorre nas cooperativas de plataforma Up&Go (trabalhadoras domésticas), CoopCycle (entregadores) e Stocksy United (fotógrafos), cujos cases estão disponíveis no Radar da Inovação, no InovaCoop.

Estas cooperativas conseguiram, cada qual em seu nicho, criar uma plataforma de uso comum dos trabalhadores para captação dos clientes. Isso se reverte em uma relação mais justa entre plataformas e seus prestadores de serviços. Na Up&Go, por exemplo, o valor recebido pelas faxinas cresceu entre 50% e 85% para as cooperadas e a renda final das trabalhadoras cresceu 20% no primeiro ano de atuação da cooperativa. Além do aumento significativo na renda, as faxineiras passaram a trabalhar uma quantidade de horas adequadas, com controle de horários e equipamentos necessários.

Assim, a tecnologia aliada ao modelo cooperativista permite que os trabalhadores, agora cooperados, entrem nesse mercado em condições melhores e dignas para a geração da sua produção e do seu sustento.

No Brasil, há um grande potencial a ser explorado pelas cooperativas de plataforma, conforme destaca Mário de Conto, doutor em direito e coordenador do projeto de pesquisa Cooperativas de Plataforma e Ambiente Jurídico, aprovado na Chamada Pública CNPQ-SESCOOP 07/2018.

Tendência 2: Ecossistemas de negócios

Podemos dizer, em uma comparação simplista, que as plataformas estão para a revolução digital assim como as fábricas estão para a revolução industrial. E como sabemos, as fábricas da revolução industrial evoluíram para intrincados complexos fabris, como o caso dos famosos hubs automotivos, por exemplo.

No caso das plataformas, podemos dizer, para efeito de comparação, que o equivalente aos hubs industriais são os ecossistemas digitais de negócios. Ou seja: estes ecossistemas são plataformas digitais integradas, nas quais os usuários conseguem consumir serviços e produtos variados em um mesmo lugar.

A consultoria McKinsey estima que este setor pode chegar a 30% de participação na economia mundial até 2025. Para se ter ideia, hoje os ecossistemas de negócios digitais representam entre 1 e 2% da economia.

O ecossistema age como um orquestrador, conectando provedores terceiros a consumidores. A vantagem para o usuário é poder fazer tudo com um mesmo login e forma de pagamento, passando com facilidade de uma oferta a outra, participando de programas de fidelidade e premiação.

E o que as cooperativas do ramo Trabalho, Produção de Bens e Serviços têm a ver com isso? Elas podem participar destes ecossistemas de negócios, organizando a mão de obra para a prestação de serviços.

Um bom exemplo de ecossistema de negócios é a brasileira Magazine Luiza, que cada vez mais está interligando todas as pontas da cadeia varejista para a construção de redes inteligentes de negócios. E como todo varejista online, a empresa tem grande volume de entregas, muitas delas na categoria chamada last mile, ou última milha, que consiste na última etapa de distribuição de um produto. Basicamente, o último trecho percorrido até ele ser entregue.

Em Barcelona, por exemplo, a cooperativa de plataforma Mensakas presta serviços para empresas na categoria last mile. Os entregadores da Mensakas utilizam bicicletas de carga para fazer este trecho urbano da entrega e prestam serviços para outras organizações.

Na prática, entender como participar destes intrincados ecossistemas de negócios, prestando serviços para eles, é uma oportunidade interessante para as cooperativas.

Ming Zeng, presidente do conselho acadêmico de um outro ecossistema de negócios relevante, o Grupo Alibaba, definiu assim o que é a organização: “o Alibaba é o que se obtém quando todas as funções associadas ao varejo são coordenadas on-line numa rede ampla alimentada por dados de vendedores, anunciantes, prestadores de serviços, empresas de logística e fabricantes." Note que, na frase de Zeng, ele lista os prestadores de serviços como elo deste ecossistema.

Tendência 3: Educação a distância

A inesperada pandemia de Covid-19, que se agravou a partir de 2020, exigiu que as cooperativas educacionais se reinventassem. Por conta da necessidade de distanciamento social, escolas dos mais diversos tipos precisaram se adaptar para ministrar aulas 100% online. Desta forma, o ensino a distância, que era uma tendência, se tornou uma realidade não apenas para o período da pandemia, mas também para o pós-pandemia.

As que ainda não haviam se aventurado nessa seara, além dos desafios tecnológicos de adoção de novas ferramentas e metodologias para ensino remoto, se depararam também com um dos grandes desafios da educação online: lidar com o baixo engajamento dos alunos. Uma das pesquisas mais completas sobre o assunto apontou uma taxa de conclusão dos cursos online bastante baixa, entre 5% e 15%.

Estes dados, é importante dizer, consideram cursos online de diferentes tipos, e não apenas de educação formal. No entanto, servem como um indicativo do quão desafiador é o engajamento no ambiente online.

Por outro lado, existem estratégias para lidar com este desafio, como abordado neste e-book sobre “Como criar aulas on-line”, produzido pelo InovaCoop.

Apesar do desafio do engajamento, essas cooperativas também se depararam com o lado positivo dos cursos on-line, entre eles: novos recursos para interação e análise de dados de engajamento; possibilidade de, passada a pandemia, o ensino online ser um complemento ao presencial, adotando aulas no formato híbrido; possibilidade acessar públicos de outras regiões; facilidade do formato assíncrono, que permite ao aluno acessar os materiais quando e onde quiser.

O Colégio Pró-Uni foi uma das cooperativas que se deparou com o desafio do ensino online. Depois de muitos aprendizados e desafios, o colégio sinalizou que, caso seja permitido após a pandemia, pretende adotar aulas no formato híbrido, ou seja, parte presencial, parte online.

A Cooplem, uma escola de ensino de idiomas com sede no Distrito Federal, depois de alguns desafios de implantação das aulas online, também obteve bons resultados com a modalidade. A cooperativa conseguiu 451 novos alunos nos primeiros seis meses de operação da plataforma EAD.

A expectativa é de que, além de compensar a perda de alunos, a plataforma reduza os custos operacionais que a cooperativa teria para atender à mesma quantidade de alunos em sedes físicas e, assim, proporcione maiores sobras aos cooperados.

É importante ressaltar que a aparente oposição entre aula online e presencial nem sempre é uma verdade. Afinal, as duas modalidades, em alguns casos, podem conviver ou se complementar, como no caso do ensino híbrido. Por isso que a educação à distância, em alguns segmentos do ensino, veio para ficar e tem se estabelecido como mais uma ferramenta para incrementar o processo de aprendizagem.

Tendência 4: Sustentabilidade

A pandemia contribuiu para acelerar a reflexão dos consumidores sobre a importância do consumo mais consciente e responsável, de bens mais duráveis e que geram menos resíduos, bem como de produtos locais. A tendência é que governos, consumidores e parceiros cobrem por ações mais responsáveis dos negócios, que tendem a investir em economia circular, logística reversa e rastreabilidade.

Essa realidade é apontada por consultorias como a McKinsey, cujas pesquisas demonstram uma preferência cada vez maior por trabalhar e consumir de organizações que não visam exclusivamente ao lucro, mas que tenham, acima de tudo, propósito e valores bem definidos.

Portanto, neste cenário, ponto para as cooperativas. Afinal, as cooperativas do ramo têm potencial para atender às exigências crescentes quanto à sustentabilidade da cadeia de suprimentos das organizações. Isso porque elas estimulam negócios locais, garantem rastreabilidade da cadeia e condições adequadas aos trabalhadores.

No norte do Mato Grosso, por exemplo, a Coogavepe (Cooperativa dos Garimpeiros do Vale do Rio Peixoto de Azevedo) conseguiu desenvolver um sistema para controle e rastreabilidade do minério de ouro comercializado pelos garimpeiros junto aos postos de compras de ouro das Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs).

Antes da organização da atividade garimpeira em cooperativa, eram documentados apenas 300 kg de ouro por ano. Com a organização dos cerca de 6 mil garimpeiros na Coogavepe e com o sistema de rastreabilidade, a cooperativa conseguiu documentar uma produção anual de 6 toneladas de ouro. Dessa forma, gerou desenvolvimento para garimpeiros e comunidades, além de mais recursos aos cofres públicos.

Além da rastreabilidade, a cooperativa mineral orienta os garimpeiros desde o início de todo o processo de mineração sobre as melhores práticas legais e de preservação dos recursos ambientais. Também investe em educação ambiental, replantio de árvores nativas em áreas que foram garimpadas e transforma cavas em tanques para criação de peixes, o que contribui para diversificação econômica na região. As práticas ambientais da cooperativa foram reconhecidas em primeiro lugar na categoria Desenvolvimento Sustentável, da 10ª edição do Prêmio SomosCoop – Melhores do Ano, realizado em 2016 pelo Sistema OCB.

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