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Cooperativas de plataforma: desafios e cases de sucesso

Conheça exemplos de iniciativas nos ramos de saúde, transporte, trabalho, consumo e outros.

COOPERATIVISMO DE PLATAFORMA15/09/202013 minutos de leitura

Neste texto vamos apresentar 7 exemplos mundiais de cooperativas de plataforma. A ideia é mostrar como esse modelo de cooperativa tem se mostrado viável nos mais diversos ramos, desde transporte até saúde, passando por produções artísticas e outros.

Antes dos exemplos, para contextualizar, vamos falar brevemente sobre o que é o modelo de plataforma e como ele se associa ao cooperativismo. Para ter um entendimento ainda mais amplo sobre o tema, recomendamos a leitura do post que publicamos anteriormente sobre o assunto e que traz toda a conceituação sobre cooperativismo de plataforma.

Para entender o que é uma plataforma cooperativa é preciso, antes, entender o que é uma plataforma. Negócios baseados em plataforma têm como premissa facilitar o contato entre seus usuários para facilitar trocas de bens, serviços e produtos. Isso significa que atuam na organização das relações envolvendo pessoas e empresas.

Um exemplo bastante difundido é o da Rappi, uma empresa que oferece a base tecnológica para que pessoas que tenham um carro, moto ou bicicleta entreguem itens para outras pessoas que compram algo que esteja à venda na plataforma. Note que o exemplo cita pessoas em geral e não necessariamente entregadores profissionais. Isso porque é aí que está um dos segredos da plataforma, atuar somente como intermediária de relações e contar com um gigantesco potencial de escalabilidade e, consequentemente, de ganhos.

Devido, entre outros fatores, à estrutura de propriedade baseada em rodadas de investimento, as plataformas mercantilistas acabam por gerar problemas nas relações socioeconômicas. Como resultado, os prestadores de serviço - entregadores, no caso da Rappi - acabam sofrendo com escalas de trabalho muito longas, falta de direitos trabalhistas e baixa remuneração.

As plataformas cooperativas surgem como alternativa nesse cenário, pois preveem que a propriedade do negócio seja dos próprios cooperados, os prestadores de serviço ou ofertantes de produtos. Com isso, a gestão é democrática e a distribuição dos resultados fica entre os cooperados.

Essas características fazem com que o cooperativismo de plataforma se apresente como uma solução bastante atraente, entretanto, as plataformas cooperativas enfrentam alguns obstáculos para sua atuação. 

 

São cinco os principais desafios à criação de cada vez mais plataformas cooperativas: 1) falta de compreensão das pessoas em geral sobre o que é o cooperativismo; 2) poucas pessoas sabem que existem plataformas cooperativas; 3) o modelo tradicional de plataforma é muito mais simples e difundido pelo mercado e pela mídia; 4) o acesso a capital é mais complicado para cooperativas e; 5) boa parte das pessoas que entendem o que é e como funciona o cooperativismo nem sempre dominam a visão estratégica necessária para atuar no universo digital.

Vamos falar um pouco sobre cada um desses desafios.

Dificuldade de entender o cooperativismo

Possivelmente, o principal desafio à criação de mais plataformas cooperativas é a dificuldade que as pessoas em geral têm de entender o cooperativismo. Este problema foi apontado, em artigo, pelo fundador da aceleradora Start.Coop e conselheiro do Instituto de Desenvolvimento Cooperativo, Greg Brodsky.

Para ele, embora 78% das pessoas afirmem ter intenção de comprar de cooperativas, apenas 11% sabem explicar o que é o modelo cooperativista. Como consequência, embora ele observe uma aceitação crescente acerca do modelo em todo o mundo, há relutância por parte das próprias plataformas cooperativas em adotar o termo “coop” como sufixo ou prefixo.

Disseminação do cooperativismo de plataforma

Além da compreensão do cooperativismo, Rafael Zanatta - que traduziu para o português o livro “Cooperativismo de Plataforma”, de Trebor Scholz - destaca a necessidade de tornar mais visível a possibilidade do cooperativismo de plataforma, o que pode ser feito por meio da circulação mais intensa de ideias e projetos de democratização da economia na Internet. Segundo Zanatta, há esforços isolados de divulgar tecnologias de blockchain e o projeto de cooperativismo de plataforma, mas são necessárias muito mais iniciativas nessa agenda.

Modelo mercantilista de plataforma é mais simples

Em contrapartida, o modelo tradicional de plataforma é muito mais simples e difundido. Não é à toa que mesmo neste texto usamos um exemplo mercantilista para explicar o que são plataformas. O problema é que não são apenas os públicos consumidor e empreendedor que têm dificuldade de entender o modelo.

E isso nos leva ao próximo desafio.

Acesso dificultado a capital

O modelo de plataforma demanda investimentos relevantes em infraestrutura tecnológica e marketing. E o desafio, na verdade, está na forma de conseguir tal investimento porque a legislação brasileira não permite sócios-investidores, conforme explica Mário De Conto, diretor geral da Escoop e pesquisador deste tema no Brasil.

“Não são permitidos sócio-investidores que só participam do negócio como investidores, buscando um retorno financeiro. A legislação não permite ter um sócio meramente investidor, mas permite, por exemplo, a criação de uma empresa subsidiária, da qual a cooperativa pode ser sócia”, explica.

De Conto observa que em outros países é comum cooperativas de plataforma que têm uma parcela da propriedade destinada aos investidores. “Muitas das cooperativas de plataforma internacionais que nós pesquisamos são cooperativas multi-stakeholders, ou seja, que permitem diversos grupos e associados. É uma situação um pouco rara no Brasil, que gera o desafio de pensar numa cooperativa com essa configuração”, avalia.

Não bastassem todos esses obstáculos, o meio cooperativista precisa abraçar as estratégias do universo digital.

Importância de fortalecer a visão estratégica digital

O meio cooperativista precisa desenvolver e disseminar uma visão cada vez mais estratégica no universo digital. Ou seja, que seja capaz de colocar os princípios do cooperativismo para concorrer de igual para igual com as iniciativas mercantilistas num mundo cada vez mais online.

Para se manterem competitivas também no mercado digital, é importante que as cooperativas se posicionem em busca do chamado “efeito de rede” positivo, para consequente sucesso do negócio. Os efeitos de rede traduzem o impacto dos usuários em uma plataforma, sua geração de valor e criação de um círculo virtuoso. Nesse contexto, a estratégia de lançamento da Stocksy é um bom exemplo. Esta cooperativa de plataforma se lançou no mercado baseada na estratégia de atrair bons cooperados, uma sólida base de clientes e com foco em seu potencial de crescimento.

Para entender um pouco mais deste assunto, recomendamos o livro “Plataforma: a revolução da estratégia”, dos autores Geoffrey Parker, Marshall Van Alstyne e Sangeet Paul Choudary.

Existem várias iniciativas que conseguiram superar os desafios e atuam com sucesso pelo mundo. No Radar da Inovação, você encontra os cases detalhados das plataformas: Fairbnb, Savvy Cooperative, Stocksy United, Up&Go, Coopcycle, Drivers Seat e Ciclos. Vamos conhecer outros exemplos agora.

 

A Resonate se autodefine como uma comunidade ética de streaming de música. Na prática, é uma plataforma coletiva em que os donos são os usuários – sejam eles os músicos ou os próprios ouvintes cadastrados. Além disso, a remuneração aos artistas é superior à praticada pelas tecnologias tradicionais.

A intenção da Resonate é reconectar a economia da música com base num modelo de negócios justo, transparente e cooperativo. Assim, para os ouvintes a Resonate tem como proposta a contribuição - e propriedade - de algo que tenha valor real na economia digital.

Para os artistas, a Resonate quer se tornar sinônimo de propriedade sobre o próprio trabalho e das redes sociais criadas em torno de sua produção musical. A Resonate quer promover justiça para os músicos e conceder-lhes controle sobre a distribuição e as receitas geradas.

O modelo da cooperativa é o chamado “multi-stakeholder”, ou seja, composto por múltiplas partes interessadas e com funções diferentes: músicos, fãs e as pessoas que a constroem. A distribuição dos resultados se dá da seguinte forma:

  • Músicos: 45%
  • Ouvintes: 35%
  • Funcionários: 20%

Atualmente, a Resonate recebe uma comissão de 30% de toda a receita, o que significa que 70% vai direto para os artistas. Em relação à remuneração dos músicos, a cooperativa a exemplifica utilizando uma calculadora em seu site: em média, uma música tocada 100 mil vezes paga 1.526 dólares ao artista, enquanto o concorrente, como o Spotify, paga 600 dólares - ou seja, um ganho adicional de 926 dólares com a Resonate.

Criada na Alemanha, a Fairmondo é um marketplace global e descentralizado. Sua principal característica, no entanto, é ser de propriedade dos próprios usuários.

A proposta da Fairmondo é ser um mercado online em que os usuários possam descobrir itens interessantes com facilidade. Ou seja, que possam adquirir artigos justos e sustentáveis. Os interessados em participar da Fairmondo podem se associar com valores a partir de 10 euros. Esta é uma estratégia da plataforma cooperativa para evitar grandes investidores e manter o modelo acessível à população. A cooperativa considera prioritária a participação online dos associados e procura manter total transparência nas atividades da empresa.

De fato, não há grandes investidores por trás da Fairmondo, mas sim mais de 2 mil indivíduos e comerciantes que constroem e participam da cooperativa atualmente. Saiba mais sobre esta plataforma cooperativa europeia por meio de suas redes sociais: Facebook, Instagram e Twitter.

A Midata é uma plataforma cooperativa que tem como missão mostrar como os dados podem ser usados para o bem comum. De maneira simultânea, baseado na premissa da governança de dados, a Midata tem a proposta de garantir também o controle dos cidadãos sobre seus dados pessoais.

Dessa maneira, o modelo da Midata é projetado para que seja possível a aplicação internacional. Na prática, a Midata, fundada na Suíça, fornece apoio à fundação de cooperativas de plataforma Midata em outros mercado por meio de subsidiárias regionais ou nacionais. Todas, nesse contexto, podem vir a compartilhar a infraestrutura da plataforma de dados.

Além disso, os cooperados se tornam proprietários de uma conta de dados na Midata e podem se tornar contribuintes ativos para pesquisas médicas e estudos clínicos. Para tanto, podem conceder acesso seletivo aos seus dados pessoais, como mostra o esquema a seguir:

Um exemplo prático em andamento é o projeto da Midata em parceria com a BFH Medical Informatics e apoio dos parceiros. Em pouco tempo, foi lançado um aplicativo que permite que os cidadãos registrem continuamente seu estado de saúde e sintomas de Covid-19. O objetivo é fornecer o mais rápido possível uma coleção de dados anônimos de saúde e sintomas em um padrão semântico definido em coordenação com o eHealth Suisse.

Com os dados anônimos disponibilizados ao público, a ideia é entender melhor o curso da pandemia não só neste momento, como também no futuro. O aplicativo é gratuito e de código aberto.

 

A Smart nasceu na Bélgica em 1998 como associação sem fins lucrativos. A transformação de associação para cooperativa de plataforma ocorreu em 2016, com a criação da “Smart Coop”, sociedade cooperativa de responsabilidade limitada com finalidade social.

Hoje, a Smart é uma cooperativa com mais de 26 mil membros, que são trabalhadores autônomos de vários setores. Está presente, inclusive com escritórios disponíveis aos seus membros, em cerca de 40 cidades de 9 países da Europa.

Concretamente, a Smart oferece uma estrutura compartilhada de serviços para seus cooperados como declarações sociais e fiscais decorrentes das atividades, cálculo e pagamento das contribuições para a segurança social e pagamento de vários impostos. Além disso, oferece uma gama de serviços compartilhados extras como assessoria, formação e ferramentas (administrativas, jurídicas, fiscais e financeiras) de apoio ao desenvolvimento da atividade profissional dos trabalhadores independentes.

O estatuto de empresário-empregado na Smart permite conciliar proteção social com uma verdadeira dinâmica empresarial. A Smart coloca o trabalhador, portador de valor econômico e social, no centro de sua missão para que adquira direitos sociais e desenvolva ao máximo sua atividade profissional.

 

A intenção da FairCab é ser uma plataforma de transporte urbano compartilhado de propriedade dos próprios motoristas. Mais do que isso, a FairCab. Aliás, um dos lemas desta plataforma cooperativa, que faz parte da New Economics Foundation, é: “We can do better than Uber” ou “Nós podemos fazer melhor que o Uber”. Assista ao vídeo da campanha.

Dentre os princípios da FairCab estão:

1)   Promover justiça e transparência

2)   Ser pessoal e confiável

3)   Dar valor adequado para o dinheiro

A ideia por trás da iniciativa é que a experiência de pegar um táxi seja simples, segura e com preço justo para todas as partes. Para manter o foco nos seus princípios, a FairCab atua apenas com transporte para o aeroporto. Assim, os passageiros podem agendar suas corridas on-line. De acordo com a cooperativa, quanto mais antecedência, melhores os preços.

A cooperativa atua nos aeroportos da área Benelux, que compreende a Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, além de aeroportos alemães próximos à fronteira holandesa, como Dusseldorf, Colônia, Weeze e até mesmo para Frankfurt e Dortmund.

 

O primeiro serviço de streaming pós-capitalista do mundo operado de forma cooperativa. É desta forma que a Means TV se autodefine. Trata-se de uma plataforma de filmes, documentários e programas, além de conteúdos semanais ao vivo, como noticiários, jogos, esportes etc. A assinatura mensal custa 10 dólares.

Em resumo, é como fosse uma Netflix, só que cooperativa. A plataforma é inteiramente financiada pelos seus assinantes (cooperados), sem patrocinadores ou investidores de venture capital. Ao todo, a construção da plataforma cooperativa levou mais de um ano, considerando todos as exigências para se tornar, de fato, uma estrutura funcional e democrática.

São três 3 níveis de membros na Means TV. Todos os resultados do final do ano são distribuídos entre os membros com base na respectiva participação:

  • Sócios trabalhadores (70% do lucro) - Categoria para funcionários em tempo integral da Means TV. Esses membros podem servir no conselho e ter plenos direitos de voto e econômicos na cooperativa.
  • Membros contratados (20% do lucro) - Esta é uma categoria secundária para aqueles com quem a cooperativa trabalha com frequência, mas que também trabalham para outras empresas.
  • Membros royalty (10% do lucro) - Categoria para cineastas, distribuidores e equipe de produções originais. Funciona como royalties para pessoas que contribuíram com obras criativas ou propriedades de entretenimento significativas. Este grupo tem direitos econômicos na cooperativa.

 

A plataforma cooperativa Mensakas se dedica à entregas. O foco são as entregas de refeições, atendendo apenas empresas comprometidas com o consumo responsável, com a economia social e, especialmente, com os direitos trabalhistas. Por isso, a Mensakas afirma prestar um serviço tanto eficiente quanto ético.

Como missão, a Mensakas quer ser a alternativa de distribuição responsável, oferecendo serviço de qualidade capaz de gerar emprego digno. A Mensakas procura colocar seu quadro de entregadores no eixo central de sua operação. Isso significa agregar valor à vida das pessoas. Além disso, a plataforma procura incentivar o comércio local e o respeito ao meio ambiente.

O surgimento da plataforma cooperativa se deu após uma greve que engajou milhares de entregadores do aplicativo Deliveroo em várias cidades da Europa em 2017. Em Barcelona, 30 dos entregadores grevistas demitidos pela Deliveroo iniciaram um processo de auto-organização que acabou resultando na criação Mensakas, que é apoiada pela CoopCycle, Federação Europeia das cooperativas de ciclistas entregadores.

 

Apesar dos desafios enfrentados no acesso a investimentos e na própria estruturação do negócio, as cooperativas de plataforma têm surgido. E é por meio de iniciativas bem sucedidas que outros empreendedores e investidores se interessam pelo tema e promovem o crescimento da modalidade.

Que este post ajude, inclusive, a pavimentar o caminho para o florescimento desse tipo de plataforma, que gera benefícios econômicos em escala a partir dos princípios do cooperativismo. Ou seja, plataformas que tenham em sua essência a busca por uma sociedade mais justa e equilibrada e com geração de valor sustentável para todos.

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Coonecta