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Brasil é destaque em conferência internacional do Consórcio de Cooperativismo de Plataforma

Ecossistema brasileiro tem se empenhado em pesquisar e fomentar o cooperativismo de plataforma no país

COOPERATIVISMO DE PLATAFORMA01/12/20217 minutos de leitura

A Conferência Anual do Consórcio de Cooperativismo de Plataforma, liderado por Trebor Scholz, aconteceu entre 12 e 18 de novembro de 2021 e foi dividida entre evento presencial, realizado na Universidade Humboldt de Berlim (12 e 13 de novembro), e vários eventos virtuais (de 15 a 18 de novembro) pelo mundo todo. No total, o evento reuniu cerca de 90 palestrantes de mais de 20 países.

A novidade da edição ficou por conta de um painel formado exclusivamente por especialistas brasileiros. Com o tema “Cooperativismo de Plataforma no Brasil”, o painel contou com as presenças de:

  • Rafael A. F. Zanatta, diretor da Data Privacy Brasil
  • Camila Luconi, professora de cooperativismo da Escoop
  • Georgia Nicolau, diretora do Instituto Procomum
  • Mário De Conto, diretor da Escoop
  • Rafael Grohmann, fundador do Observatório de Cooperativismo de Plataforma
  • Samara Araujo, coordenadora de inovação do Sistema OCB

Com visões complementares, os painelistas puderam apresentar o ecossistema brasileiro de cooperativismo de plataforma, o qual, segundo eles, nunca esteve tão aquecido como agora. E isso se deve em boa parte à pandemia de Covid-19, que evidenciou a necessidade dos empreendedores em utilizar plataformas digitais para manter seus negócios, além do uso em larga escala de aplicativos de entregas.

Ecossistema e visibilidade do cooperativismo de plataforma

Foi interessante notar como o painel conseguiu reunir diferentes players de um ecossistema pujante e que se mostra cada vez mais necessário para fomentar cooperativas de plataforma no Brasil. Afinal, entender uma inovação em sua totalidade exige uma análise sistêmica - e já explicamos isso neste outro post.

Do ponto de vista jurídico, por exemplo, o evento contou com a presença do diretor da Escoop, Mário De Conto, que conduz um projeto de pesquisa aprovado na chamada pública do CNPQ-SESCOOP. Nesta pesquisa, ele analisa os fatores impulsionadores e restritivos ao desenvolvimento do cooperativismo de plataforma no ordenamento jurídico brasileiro, propondo medidas para seu desenvolvimento.

“O que percebemos é que não se faz necessária a criação de uma lei específica para cooperativas de plataforma, mas sim atenção a alguns pontos da Lei Geral de Cooperativas a ponto de afastar fatores restritivos”, afirma o diretor da Escoop - que deu mais detalhes sobre o assunto nesta entrevista ao InovaCoop.

Um exemplo de mudança na legislação - que contou com a contribuição do Sistema OCB - foi a autorização, em 2020, para realização de assembleias digitais, o que representa um considerável avanço no que tange à cultura digital para cooperativas.

“Discutia-se muito no cooperativismo a adoção de instrumentos digitais para a realização das assembleias e o seu impacto na participação dos associados e na governança. Com a pandemia, esse processo foi acelerado e naturalizado”, explica Mário De Conto.

Além das questões jurídicas e de governança digital, a visibilidade ao tema também é de suma importância. Por isso, além do InovaCoop, que desde o seu início publica conteúdos sobre o tema, o evento também destacou a atuação do DigiLabour e do Observatório do Cooperativismo de Plataforma (OCP), ambos liderados por Rafael Grohmann, que é crítico da precariedade do trabalho em plataformas e defende a dignidade do cooperativismo.

“Tenho pesquisado o cooperativismo de plataforma mais a fundo desde 2018. E vejo o Brasil como um dos países com a comunidade online mais vibrante em torno do cooperativismo de plataforma. Agora nós precisamos transformar isso em políticas públicas, legislação”, afirma Grohmann.

Samara Araújo, coordenadora de inovação do Sistema OCB, confirma o maior interesse em torno do tema e conta que, atualmente, o cooperativismo de plataforma é um dos temas trabalhados pelo InovaCoop por meio de educação e informação. “Há uma demanda cada vez maior pelo tema, não só pelas cooperativas já estabelecidas, mas também por pessoas que ainda não estão no setor”, explica.

Ela lembra, porém, que ainda temos poucas startups cooperativas criadas totalmente de forma digital no Brasil. Por outro lado, afirma Samara, “há várias cooperativas tradicionais tirando proveito do modelo de plataforma de negócios”. 

Dúvidas sobre o conceito

O painel também discutiu a definição do conceito de cooperativa de plataforma, que pode ter entendimentos diferentes conforme a legislação de cada país. Por isso, Mário De Conto, da Escoop, lembra que, segundo a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), “uma cooperativa de plataforma é uma cooperativa criada conforme os princípios cooperativos e que opera por meio de uma plataforma digital”.

O mediador do painel e diretor da Data Privacy Brasil, Rafael Zanatta, reforça que, de fato, existe uma certa complexidade entre os diferentes modelos, especialmente do ponto de vista legal. “E isso representa, para todo o ecossistema, uma oportunidade para revermos nossa legislação, que é muito rígida”, opina.

Vale ressaltar que o cooperativismo - não só o de plataforma - é um modelo de negócio cada vez mais atual e inovador. Camila Luconi, professora de cooperativismo da Escoop, lembra que as cooperativas representam cerca de 12% da população mundial. “Ao mesmo tempo que é um nicho, também é um setor muito grande”, afirma.

Camila também exalta uma característica relevante das coops nos dias atuais: a distribuição do poder. “Se você é cooperado, você possui uma parte da propriedade, e não apenas por conta do capital. E isso segue sendo muito inovador mesmo nos dias atuais”, explica. Tal característica reforça o potencial de crescimento do cooperativismo de plataforma, ainda mais num cenário de crise como o atual. 

Confira como foi o painel brasileiro (em inglês) na conferência internacional do Consórcio de Cooperativismo de Plataforma:



Mais sobre o evento

Segundo os organizadores da conferência, a atual pandemia deixou o planeta em desordem e escancarou a importância da internet. Por outro lado, também evidenciou a necessidade de termos mais cooperativas de plataforma.

“Quando confrontados com uma desigualdade econômica avassaladora, mudanças antes impensáveis ??podem se tornar senso comum. Agora é hora de criar uma economia digital que responda a essas questões urgentes, para tornar a democracia um lugar comum, no local de trabalho e fora dela; para escalar a igualdade; para contribuir com os bens comuns, não com a destruição de nosso meio ambiente. É hora de pensar sobre como as plataformas digitais podem ser guiadas por princípios cooperativos”, afirma o consórcio responsável pela conferência.

Pensando nisso, a edição deste ano levou a hashtag #TheNewCommonSense (o novo senso comum) e reuniu cooperados, colaboradores, formuladores de políticas, pesquisadores, designers e ativistas de mais de 20 países.

O grande objetivo era avaliar como as cooperativas de plataforma responderam à pandemia, analisar políticas de inibição e apoio e discutir experimentos atuais com cooperativas de dados, sistemas de token e redes criptográficas. Algumas questões discutidas no evento foram:

  • Em uma sociedade de plataforma, como os trabalhadores geograficamente dispersos podem autogovernar as plataformas digitais?
  • Quais setores e comunidades se beneficiarão mais com as cooperativas de plataforma?
  • Que papel os sindicatos podem desempenhar no apoio a este movimento?
  • E como as cooperativas de plataforma podem contribuir para a criação de infraestruturas de tecnologia verde?

“A democracia participativa é uma aspiração que se estendeu a quase todas as nações deste planeta. Agora é hora de direcionar a economia digital nesta direção, para tornar as cooperativas de plataforma um bom senso - na Europa e além”, finaliza os organizadores.

Quer saber mais e conhecer o programa completo do evento? Acesse: https://platform.coop/events/conference2021/

Para se aprofundar no tema, recomendamos a leitura do e-book: Cooperativismo de plataforma: desafios e oportunidades, produzido pelo InovaCoop. 

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